16 de fevereiro de 2013

Vibração sonora da alma...








"(...) o som da aura é a vibração sonora da alma de cada um, refletida pela sua fala, que faz a ligação entre mente e corpo. (...)” Hermeto Pascoal



Às vezes penso que os sentidos foram feitos para o engano. Servem à ilusão da vida concreta, material, ao mundo aparente. Uma vez fiz um exercício de técnica teatral que aguçou minha percepção nesse sentido. O professor pediu que cada um dos alunos imaginasse uma música e a ouvisse mentalmente. Caminharíamos movimentando o corpo ao som da melodia que ouvíamos dentro de nós. Num momento seguinte, buscaríamos caminhar ao lado daqueles que estivessem com movimentos parecidos com os nossos. E, para minha surpresa, uni-me a colegas que aparentemente eram muito diferentes de mim. Fomos atraídos pela vibração. Algo sutil, que ia além das aparências, mas que me parecera mais essencial do que qualquer possível divergência externa.

Aos poucos fui compreendo as dificuldades que sempre tive desde a infância. Os conflitos que vivia entre o que eu via e ouvia e o que sentia. No fundo de mim, nunca acreditei muito nos meus olhos, nas palavras que escutava, nos gestos condicionados, nos disfarces. Cria em outra coisa, da qual não sabia o nome, e que só aos poucos pude nomear: a vibração sonora da alma!

Quando conheci Claudinha, os sentidos apontaram nossas diferenças: ela extrovertida, alegre, colorida, cheia de vida; eu introvertida, melancólica, amante das cores que preservavam a alma da exposição. Aquário e Escorpião, ar e água, pra dentro e para fora: éramos nós tão diferentes uma da outra. Para minha surpresa, o tempo e a convivência foram sincronizando nossos passos, foram aguçando nossas percepções para aspectos nossos essenciais que as aparências não deixavam ver. Aprendi muito com ela. Descobri que vivíamos dores semelhantes, embora externamente nossas expressões fossem diferentes. Entendi que ambas tínhamos uma sensibilidade extremamente aguçada e que lutávamos para ver a beleza da vida apesar de.

Meu primeiro “encontro” com ela se deu através da escuta. Não é fácil “escutar” o outro quando ainda nem aprendemos a escutar a nós mesmos. Aprendi da vida escutando. As histórias alheias sempre me interessaram. Sempre escutei mais do que falei. E descobri que não é fácil ser escutada. Claudinha escuta profundamente. As histórias alheias – dores, alegrias, descobertas, prazeres – interessavam à sua alma, profundamente, como interessavam a mim. E outras descobertas vieram a partir desse primeiro “encontro”. Aprendi a rir de mim com ela. A chorar. A colorir as paisagens sombrias e a acreditar que é possível ser feliz mesmo quando a vida impõe desafios difíceis.

Ano passado, Claudinha viveu um momento que já me era conhecido: doença e perda do pai. Passei por isso muitos anos atrás. Sabia exatamente como aquela alma sensível estava processando tudo. A morte nos deixa sem palavras. Não saberia o que dizer a ela no momento em que dava o último adeus ao pai. Passei na floricultura, escolhi algumas rosas brancas e, no meio delas, coloquei uma flor lilás, outra afinidade entre nossas almas. Não haveria palavras para aquele momento. As flores haveriam de falar o que eu não sabia. Palavras limitam. Entreguei as flores a ela, que lá estava sofrida e cheia de fé. Exausta e consciente. Inteira, como ela é. As flores foram distribuídas, por ela, entre seus familiares. Quando viu a flor lilás, olhou-me nos olhos e esboçou um sorriso cúmplice. Nós já nos entendíamos para além da aparências, então.

Ao violão, um homem tocou uma canção de amor e todos acompanharam cantando. Depois, o mesmo homem tocou “O que é, o que é”, de Gonzaguinha, já um hino consagrado de amor à vida. E lá estava Claudinha entoando o refrão com a convicção de quem sabe que a morte não existe e de que a vida sempre vale a pena: “É bonita...é bonita e é bonita!”. Claudinha é uma pessoa muito bonita. Como a vida.  E, mais do que nunca, entendi o que nos colocou lado a lado num momento difícil de nossa caminhada: a vibração sonora da alma!

Parabéns, Fênix, querida. Ter conhecido você foi essencial na minha caminhada terapêutica e de vida.

10 comentários:

olara, um castelo de sonhos disse...

Eu não resisti, encontrei-me no seu texto, principalmente em: Aos poucos fui compreendo as dificuldades que sempre tive desde a infância. Os conflitos que vivia entre o que eu via e ouvia e o que sentia.
Obrigada por partilhar nossas vibrações! beijos no coração!

luna luna disse...

desculpa fiz o comentario a este post no de baixo das asas.
beijos

Assis Freitas disse...

o que faz o encanto da vida são esses encontros,


beijos

Verso Aberto disse...


escutar
e
auscultar

apreender o bom da vida



Lu Cidreira disse...

Olá amiga, já de volta em plenitude convívio blogal!
Essa de nosso ego e íntimo é de boa, só temos que colocarmos em prática.
Abraço

Ira Buscacio disse...

Taninha, não precisamos sair daqui com a lição feita, mas é fundamental que se rabisque idéias, sutilezas, cheiros, sonhos, sorrisos, lágrimas, e tanto mais. Cada pedaço de tentativa é uma vida inteira, e vida é beleza, até quando feia, até quando erro, sempre a nos proporcionar encontros e surpresas
A humanidade se morre matando por respostas, quando basta abrir as mãos e tirar delas as sementes do amor e da compaixão para escutarmos o som da vibração perfeita.
Depois desse texto, vc ficou ainda mais bela.
bj grande

Daniela Delias disse...

Belíssimo...

Taninha, és bonita, bonita e bonita.

Beijo carinhoso!

Carlos Souza disse...

Lindo esse "encontro", Tânia! Texto belíssimo!

Abraços

Primeira Pessoa disse...

como eu disse-lhe, um dia, taninha: alguns irmãos nascem, estranhamente, no ventre de uma outra mãe.

beijo beijo beijo.

r.

Francisco Coimbra disse...

Fui trazido pela minha amiga bbrian, deixo endereço com abordagem criativa dela:
http://www.sobresites.com/poesia/forum/viewtopic.php?p=40927#40927
Limito-me a deixar parabéns!