30 de maio de 2010

Deitar e morrer


Ler Roberto, do blog Primeira Pessoa (http://cronicasderobertolima.blogspot.com/) é muito bom. Além das crônicas envolventes, ainda há ali uma espécie de fogão a lenha na cozinha, em torno do qual a prosa corre solta. Eu estava mesmo sem vontade de atualizar o blog – cansada de leituras e escritas e estudos –, mas li hoje a crônica do nosso blogueiro jornalista e escritor, homenageando dona Glória, e cá eu lembrei de uma também vovozinha que conheci há anos, numa das trilhas da Chapada Diamantina, a velha Poné, com quem aprendi muito em poucos dias de convivência.

Poné morava sozinha numa casinha isolada, sem energia elétrica, distante da cidade, entre mangueiras que faziam a escuridão da noite ainda mais profunda. Doente dos rins, além de outras complicações provocadas pela idade, a velhinha dividia seu espaço com um gato, dois cachorros que tinham nomes poéticos – Oriente e Horizonte – , além das galinhas que alimentava pacientemente todos os dias.
Embora velha e morando nos confins, seus cabelos eram tingidos por uma infusão que ela mesma preparava com a mistura de algumas folhas.

A primeira vez em que estivemos com Poné – eu e mais três pessoas do grupo –, improvisamos, em sua casa, uma comemoração de aniversário de nosso guia nas trilhas, Joás. Levamos muitas bolas de soprar coloridas, com as quais ornamentamos a cozinha de Poné, nosso lugar preferido da casa, perto do fogão a lenha, em torno do qual conversávamos. Inesquecível o brilho nos olhos da velha diante das bolas coloridas e o seu pedido singelo na hora que estávamos prestes a seguir viagem: “Pode deixar as bolinhas pra mim?”. Deixamos, e um sorriso largo mostrou-se em seu rosto.

Um dia, antes que chegasse a hora das despedidas, chamamos Poné para as fotos que queríamos levar de recordação, e a velha solicitou uns minutos para “vestir uma roupa melhor”. Não demorou muito e apareceu de saia e blusa azuis, feitas de um tecido grosso, chapéu de palha com largas abas, esfregando apressadamente no corpo qualquer coisa que não soubemos identificar de imediato. “É remédio, Poné?” – perguntei curiosa àquela senhora com jeito de menina. Não era – era perfume; e eu logo soube que era perda de tempo lembrar à velhinha que cheiro de flor não aparece em fotografias.

Numa manhã, pensando sobre a distância enorme que separava a casinha da velha do vilarejo mais próximo, preocupei-me com a sua saúde e perguntei:

– Poné, se você se sentir mal aqui nesse lugar isolado, o que vai fazer?

Sem parar de regar as plantas, ela me respondeu com naturalidade:

– Eu dêitio...

Sem me dar por satisfeita com a resposta, insisti:

– Mas... e se você não melhorar?

Sacudindo o resto de água do regador em mais uma das várias plantas do seu jardim, a sábia senhora não hesitou:

– Eu morro.

Era simples, Poné me mostrava: deitar e morrer. Eu é que complicava.

Passei muito tempo sem saber da velhinha que tinha um jeito muito singular de dizer que era feliz sozinha: “Eu sou minha mesmo!”.

Um dia pude perguntar por Poné a um conhecido e soube, então, que havia morrido. Morrera como queria, ali na Natureza, entre seus bichos e suas plantas. Não sei que fim tiveram Oriente e Horizonte, os cães fiéis que, inexplicavelmente, entendiam cada palavra da velha.

(T.C.)

51 comentários:

Rita Contreiras disse...

Sempre achei essa história tão poética e tão rica de ensinamentos na sua simplicidade!Quem dera eu aprendesse um pouco dela pra viver com mais qualidade...!

Marcantonio disse...

Ah, Tânia, cheiro de flor sai sim nas fotografias, exalado dos olhos e dos sorrisos! Sai até em blogs, como esse seu!
Realmente, ler o Roberto é essencial. Já tá difícil imaginar a semana sem ler o Primeira Pessoa... Esse cara vicia. Que abraço é aquele da D. Glória? Eu nem comentei para não profanar o meu momento após a leitura!
E essa velha Poné? Muito terno o seu texto. Engraçado que eu o li com a imagem da Zabé da Loka na cabeça, velhinha de incríveis olhos verdes, tocadora de pífano, lá de Monteiro, na Paraíba, e que andou correndo parte do Brasil com suas músicas. Ela morou durante anos numa caverna, coisa incrível de ver. Eu devo ser muito emotivo, tanto que essas coisas reverberam em mim. Oriente e Horizonte, demais!

Grande abraço, Tânia!

P. S. Favor não deixar o blog muito tempo sem atualizar. Tem matizes essenciais esse roxo-violeta!

Andrea de Godoy Neto disse...

Tânia,que lindeza de relato esse!!!

Poné tinha razão, e nós é que cismamos de complicar as coisas, né?
sou fã dessa sabedoria que habita a simplicidade

ainda bem que tu resolveu atualizar o blog :D

gosto um tanto de passar por aqui!

beijos pra ti

(p.s.:e o blog do roberto é mesmo alimento... dia desses também disse pra ele que era que nem restaurante bom, o que vem nos sacia)

Tânia regina Contreiras disse...

Rita, Você conhece a história, que já falei tanto de Poné, não é? Queria ser uma velhinha como ela, quem sabe tenha aprendido algo?

Beijos,
T.

Oi, Marquinho, as emoções brotam, sim, quendo vemos ou ouvimos histórias de singela, de gente de verdade. E talvez você tenha razão, cheiro de flor sai na fotografia sim, eu é que não consegui captar o que Poné captou.

Bem, vou tentar estar atualizada, é que o tempo às vezes fica bem encolhido.
Beijo, Marquinho


Oi, Andrea, é isso, a gente perde a simplicidade e deixa de compreener aquilo que é um processo natural. Sem espantos, sem assombros, a gente "dêitia e morre".

Beijos,
T.

Primeira Pessoa disse...

tânia,
ser um ser singular. descomplicar. essa praticidade que poucos, pouquíssimos conseguem...
putz, que bom que cê encontrou poné... que pode desfrutar da companhia dela... aprender com ela... essas coisas possuem valor incalculável... começo a escrever e começo a rir sozinho, meio maluco que sou...
sim, aqui estou eu, tentando colocar "valor", tentando ser quantitativo...rs
não aprendo nunca...rs

beijo imenso procê.
roberto.

Mila disse...

Um grande aprendizado na leitura do teu poste Tânia.
Adorei...
Bjs de Boa Semana!
Mila

Silc disse...

Espetacular Minha linda! Amei o Texto! A vontade é navegar junto, vivenciar tudinho mesmo! Um aprendizado! Parabéns, tudo perfeito.
Com amor e carinho,
Sílvia
Ps.:
Se desejar, vá até meu blog. Há uma nova postagem esperandinho...
http://silminhacolchaderetalhos.blogspot.com/

Tânia regina Contreiras disse...

Ah, Robertyo, conversar aqui é bom, mas na cozinha de sua casa é melhor..rsrs..tem magia ali.Pois, então, menino, dona Glória chegou trazendo ternuras e acabou me lembrando a Poné!
Beijão, Roberto.

Tânia regina Contreiras disse...

Oi, Mila, obrigada pela sua presença, querida, e boa semana pra você também.

Beijos

Tânia regina Contreiras disse...

Oi, Silvia, obrigada por vir, já estive lendo seu post e agradecendo também lá sua presença aqui.
Beijão,
Tânia

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

as imagens do texto me lebraram minhas férias na casa de minha vó em Mundo Novo, coisas simples e ternas
texto para para ser lido ao som de - Solidão de Amigos -de Jessé
abrços

Tânia regina Contreiras disse...

Jessé...sim, bem lembrado. Eta férias boas, heim? Casa de vó no interior é lembrança inesquecível.

abraços, Ediney

Assis Freitas disse...

quem dera ter tanta paz, abraço

Tânia regina Contreiras disse...

Abraços, Assis! Acho que a convivência íntima com a Natureza traz essa paz.

Primeira Pessoa disse...

ó,
o kledir aderiu ao blogspot. depois cê passa lá pra "desopilar".
é satisfação garantida ou o seu dinheiro de volta...

http://blogkledirhome.blogspot.com/

beijão do
roberto.

Tânia regina Contreiras disse...

Pode deixar que vou lá, Roberto!

Silenciosamente ouvindo... disse...

Já tentei duas e nada vamos ver se
à 3ª. vai. Para lhe dizer que estive
aqui e muitos beijinhos./Irene

jefhcardoso disse...

Tânia, incrível a Poné. Cativante. Eu gosto dessa simplicidade e, três em cada quatro textos que escrevo acabam sendo sobre esse assunto, concordo que complicamos muito; penso que alimentamos demasiadamente a fogueira da vaidade, e levamos a fogo lento, ou quase apagado, a fogueira do amor ao ‘simplesmente viver’.

Abraço do Jefhcardoso

Tânia regina Contreiras disse...

Tens toda razão, Jeff. A simplicidade me ensina muito. As pessoas mais simples trazem grandes ensinamentos.

Abraços,
TÂnia

Gerana Damulakis disse...

E pensar que quase vc ia deixar de fazer uma postagem dessa! Foi muito boa leitura para um fim de noite: a simplicidade, ah, a simplicidade do deitar e morrer.

Tania regina Contreiras disse...

Tão simples dito assim, não Gerana? Mas ela estava certa, é simples mesmo.
Abração

Machado de Carlos disse...

... e nós aqui do outro lado, por qualquer coisinha corremos até uma farmácia e um comprimidinho milagroso resolve nosso problema.
Um abraço sempre. Escreve bem! Portanto escreva sempre. É bom ler você!

Machado de Carlos disse...

Sua história ao fogão de lenha é incrível. E o fato poético ao usar flores perfumadas que ficaram gravadas para sempre na fotografia. Veja só, coisas de escritores, não se esquecendo de quaisquer detalhes
Obrigado por me comentar!

Tania regina Contreiras disse...

OI, Machado...é isso mesmo, vivemos lutando contra a morte, e haja comprimidos. Deitar e morrer ficou absurdo, mas não o era para a velhinha Poné.

Abraços

anita sereno disse...

lindo texto
como diz ai o senhor aqui ou nos nesse tempos modernos qualquer coisa é remédios médicos enfim e esta linda senhora apenas vivia na sua maneira de viver a que se tinha habituado ate morrer como queria lindo beijos boa semana

VT disse...

Olá Tania!
É isso mesmo a simplicidade surge naturalmente como sinal da sabedoria que se vai instalando lentamente em nós. Adorei ler mais uma vez ler a cor das suas emoções. Sobretudo sentir um cheiro bom de flores e do seu campo roxo-violeta.
Meu post de amanhã é dedicado a você.
Beijo grande
VT

Juan Moravagine Carneiro disse...

Gostei muito desta crônica...

Mas confesso que senti em certo sentido nostálgico..me recordando de minha infância...

Belo escrito

abraço

Multiolhares disse...

Tanto podemos aprender com os mais idosos, eles tem a sabedoria da vida e aceitar a morte é algo que nos deveríamos todos preparar e aceitar, pois nascemos sem pedir e se nascemos também vamos morrer e sem pedir, quando for a hora certa
beijinhos

Adriana Karnal disse...

a realidade também pode ser poética na sua tristeza. Morrer na sólidão da natureza é sábio.

Marcia Gomes disse...

Não sei o que é melhor, "deitar e morrer", "passar perfume pra fazer foto" ou "ficar com as bolas de soprar". Inveja branca da pureza da sábia Poné. Que Deus a tenha nos céus da Chapada Diamantina. Bjs

lokaz disse...

Oi Tânia,
pode postar a tira no mínimo ajuste.
Só me avisa pra eu poder divulgar no meu blog também :)
www.lokaz-tirinhas.blogspot.com
beijos

Tania regina Contreiras disse...

Anita, querida, muito obrigada pela tua visita. Deixei uma mensagem no teu blog, em resposta à angústia existencial tornada poesia. Beijos, Tania

Tania regina Contreiras disse...

VT, já estive te visitando e deixei uma mensagem de amizade. Obrigada por vir, amanhã estou passando por lá novamente.

Abraços,
Tânia

Tania regina Contreiras disse...

Olá, Juan, obrigada pela visita. Saudades batem às vezes, né? Infâncias não se apagam nunca. Também lembro da minha, diante da simplicidade com que aprendi entre gente que é gente.

Abraços,
Tânia

Tania regina Contreiras disse...

Adriana, muito obrigada pela visita, viu? adorei. Bom mesmo é lembrar que a velhinha Poné era alegre, não havia solidão na sua solidão, isso é sábio.

Beijos, querida!

Tania regina Contreiras disse...

É, Marcinha, Poné era pureza, coisa de nem acreditar. Viveu e morreu feliz, não tenho dúvida. E a nossa Chapada guarda essas perolazinhas escondidas, né?
Beijos e obrigada pela visita.

Tania regina Contreiras disse...

Lokaz, te aviso sim, pode deixar. Abração e obrigada pela visita.

Mulher na Polícia disse...

Sabe que me deu uma saudade dos meus avós? Era por causa deles que a gente passava as férias da escola na fazenda.

Eles são pessoas tão simples, e esse fogão a lenha de que você falou me trouxe muitas saudades daquele tempo.

Que bom ter passado por aqui hoje!

Um beijo, flor!

pablorochapoesias.com disse...

Como podemos desprezar coisas tão simples e valiosas? Adorei!!

Não deixe de postar jamais!

Beijos, Tania!

Hana disse...

Olá, vi dar meu oizinho, deixar um beijinho e levar seu carinho e estou na correria, ma pitou uma saudadinha!
com carinho
Hana

ju rigoni disse...

Eu não comento muito lá, não. Mas leio sempre o Roberto lá no reader. Para falar a verdade, tudo. Identifico-me muito com as crônicas e com as músicas e os poetas que ele publica por lá. Há muita gente que leio e acabo não comentando por conta do tempo e, as vezes, confesso, da preguiça. (Ô meu Deus, como eu sou mal educada!) Mas leio tudinho. Mesmo.

A história da Poné é tocante, linda! Vivemos tão intoxicados neste mundo plastificado que às vezes nos esquecemos que é só na simplicidade que há felicidade para todos. E que ela pode emprestar muito mais qualidade a esse ato tão natural e, talvez por isto, tão assustador, que é morrer.

Poné, - grande porque nunca se viu maior do que foi. Aliás, do que é, porque você a imortalizou em suas letras.

Adorei, Taninha! Bjs e inté!

Silenciosamente ouvindo... disse...

Tânia hoje assisti a um mini-tornado, foi impressionante,
durou cerca de 1 minuto.Realmente
a natureza anda revoltada.
Vim para estar consigo e lhe
deixar um beijinho.Irene

Tania regina Contreiras disse...

Mulher na polícia...lendo seus post sempre, bem-humorados, falata parar e comentar...mas, nossa, meu tempo encolheu e o blog aqui quase dança nisso. Fico devendo e cumpro.
Beijos,
Tânia

Tania regina Contreiras disse...

Oi, Pablo, esse "não deixe de postar jamais" é que tá complicado...rs... Tempo encolhidinho, corre e corre e corre... Vamos tenta, os blogueiros amigos maravilhosos, os poetas haverão de me ajudar a continuar. Posto vocês enquanto desafogo.
Beijos, Pablo

Tania regina Contreiras disse...

Oi, Hana, brigaduuu...Assim com tempo pouco, mas passo lá para te ler e retribuir a visita.

Beijinho,
Tânia

Tania regina Contreiras disse...

Oi, Ju, bem que entendo, saio lendo todo mundo (e leio mesmo também), mas o tempo fica curto para comentários. Não, preguiça nem é tanta, o tempo mesmo. Mas valeu você por aqui. Tu sabe que sou fã dos teus escritos, desde que bati os olhos a primeira vez. E continuo.

Beijo grande, Tania

Tania regina Contreiras disse...

Irene, querida, nunquinha presenciei um tornado, deve assustar... Não sei se é revolta da Natureza, pode ser, mas o diabo é que acho bonito umas coisas... Tornado, visto de longe, é bonito.
Beijos, querida amiga!

Silenciosamente ouvindo... disse...

Hoje é feriado em Portugal,
mas já tenho uma chatice,
partiu-se uma peça da máquina
de lavar roupa.Começo mal o dia.
Espero que o seu dia seja bom.
Beijinhos/Irene

Machado de Carlos disse...

Que bom que você me visitou!... Sim, o álbum está guardado a sete chaves!...
Obrigado!

Marcia Gomes disse...

Taninha, venho aqui na sua "casa" para convidá-la a conhecer minha nova "casa" virtual: MuNdO pLuRaL, um blog de notícias bizarras, esquisitas, engraçadas, curiosas e diferentes. Sua opinião será importante. Bjs

Cristina disse...

Seu blog é maravilhoso !!!!
Seu blog é completo!!!
Quando estou triste, estou aqui!
Quando estou alegre também!!!

Obrigada, sempre!
Cristina