30 de abril de 2010

Nem alegre nem triste: poeta!


Homenageio, com esse post, Marcantônio, do blog Diário Extrovertido



Não me lembro onde li que a melhor maneira de esconder algo que não queremos ver notado é escancarar tudo logo de uma vez. Algum sábio de plantão entendeu fácil que o óbvio passa despercebido e que gato escondido deixa o rabo de fora. Faz sentido – pensei, lembrando dos meus olhos enormes, suplício dos meus idos anos da infância, e até um pouco mais além disso.

Quis, em vão, usar óculos para torná-los menos visíveis. No espelho, ensaiava olhares espremidos, simulacro de míope, coisa que não deu certo. Por mais que fizesse, o que via em mim mesma eram dois globos gigantes querendo saltar para o abismo externo do mundo, contrariando a minha natureza íntima, meus olhinhos interiores, amante das minúcias da alma.

Não, eu não ouvia ninguém. Por mais que retrucassem, era só minha a dor de ter nascido com noventa e nove por cento de olhos e um mísero um por cento mal distribuído pelo restante de um ser cujo destino parecia ser mesmo enxergar a vida panoramicamente.

Lembro que desenhava ciclopes nos vários cadernos de espiral da adolescência, onde registrava nas noites os meus anseios. Por um lado, invejava os gigantes que tiveram a felicidade de ter um olho só; por outro, agradecia aos deuses por não terem tido a infeliz idéia de botar-me mais um olho no meio da testa – eu não resistiria a tanta infelicidade!

Um dia resolvi abrir os olhos e afrontar o mundo com os meus noventa e nove por cento de olhos – deu certo! Um forasteiro na minha cidade, disputado entre as adolescentes como eu – à exceção dos olhos, claro, posto que elas tinham olhos “normais” –, começou a salvar a minha vida, sem que o soubesse: “Que olhos lindos!”. Como é? Onde? Olhei para trás, mas não havia ninguém, era eu mesma. Foi só decidir abrir os olhos e o mar revolto da adolescência de invenções dolorosas ... serenou-se!

Ah, mas havia mais pedras no meio do caminho, havia outras pedras!
Um dia – nem lembro quando foi a primeira vez – alguém atentou para um quê sombrio nesse meu olhar. Sim, os olhos que já sofreram de grandes agora sofreriam de... tristes?
Não, não – tentavam me dizer – não era bem tristeza, era um algo lírico, liricamente melancólico, ou melancolicamente lírico (gente, “eufemismo” eu já sabia exatamente o que era, mas o que queriam me dizer de fato?)... Bem, o negócio era ir ao espelho e esmiuçar anatômica e fisiologicamente os meus olhos – córnea, íris, pupila, cristalino, retina – pra descobrir onde se encontrava a invasora.

Tristeza, eu? eu não – constatei diante do espelho. Mas em tempo lembrei que o espelho é cúmplice em nossos enganos, fala-nos exatamente o que queremos ouvir. Seria, verdade, então, que esses mesmos olhos grandes que sofreram de amplitude agora penariam de tristeza – ó céus!

Mas, espera aí – se esbugalhei os olhos e encarei a vida panoramicamente, tenho mais é que deixar fluir esse-qualquer-coisa aquoso que vaza pelo olhar assumidamente desmedido, até que, de tão óbvia, a coisa torne-se natural, é ou não é?

O Marquinho, do blog Diário Extrovertido (do qual só super-hiperfã) outro dia fez um comentário num post meu que tem tudo a ver com isso. Ele disse:” Seus escritos são muito densos, de uma beleza melancólica; aquela que, para mim, é mais persistente e reverbera na memória, mesmo porque não há outra forma de tocar de modo inequívoco aquilo que há por trás do óbvio”. Gostei. Reagi assim como encarando o mundo com os olhos absurdamente abertos. Meu amigo Ricardo também definiu meus olhos de um modo que me agradou: olhos grandes cabem bem para um olhar amplo, profundo... É...as coisas vão melhorando quando a gente assume o que é.

E de mais a mais, este aqui é o meu canto, a minha cantiga de reconciliação com esta minha alma que não dispensa os mergulhos em águas profundas, muitas vezes turvas. Embora sempre aprendiz da arte de combinar sons, ritmos e significados, penso em, pretensiosamente, declamar a mim mesma, diante desse espelho que são os outros, os versos de Cecília Meireles:

Eu canto porque o instante existe
E a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
Sou poeta.

Tania Contreiras

22 comentários:

ju rigoni disse...

Tania, que texto lindo! Bela homenagem!

Deixo-lhe um fragmento:

Olhar para dentro...
Experimentar o silêncio
mais profundo, -
submergir na escuridão
que cega
tamanha é a luz
das suas respostas...

Um beijo, linda, e inté!

ps - novamente, tive dificuldade para postar o comentário.

Marcantonio disse...

Ô Tânia, obrigado. Você me deixou agora com aquele dever, quase sempre insensato, de encontrar as palavras certas para agradecer. Que o sentimento chegue a despeito das palavras, mesmo que eu fique mudo, como você disse. Para alívio da minha timidez, fico satisfeito que essa homenagem ocorra num texto tão bonito que me permite deslizar novamente para os bastidores enquanto você homenageia algo muito mais importante: a palavra e a poesia. Por fim, você é que me fez ver a face mais bonita dessa coisa de ter um blog, não uma expressão autista, nem mera comunicação, mas uma comunhão aberta no banquete dos sentidos e das afinidades.
Na sua casa, as portas da imaginação e do afeto estão sempre abertas, lado à lado.

Abraços.

Marcia Gomes disse...

Que bonitinho! Lembrando que um dia foi um patinho feio que se descobriu um belo cisne! ;-) Seus olhos são muito bonitos, mas o seu terceiro olho é ainda mais brilhante! Beijos, Marcia

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

" o maior segredo é não haver mistério algum" cantou isso um dia Renato Russo, creio que foi isso que senti ao ler teu texto, não importa se a voz desafina, o que importa é qeu seja sincera, nossa de verdade
abraços

Tânia regina Contreiras disse...

Oi, Ju, não sei o que acontece, também tenho tido dificuldade de postar comentários em alguns blogs. Mas, enfim, você conseguiu e agradeço sua visita carinhosa.
Beijo grande pra você!

Tânia regina Contreiras disse...

Oi, Marco, não é mesmo necessário agradecimentos, porque minha homenagem já foi um agradecimento.Gosto muitíssimo do que você escreve, e isso, por si, só, já é um presente grande pra quem lê.
Abraços

Tânia regina Contreiras disse...

Oi, Marcinha, grata pela presença. Mas continuo agradecida por não ter um terceiro olho externo, visível, porque o espaço já está bem disputado, né, dois chegam! rsrsr

beijos

Tânia regina Contreiras disse...

Ediney, obrigada pela presença aqui. Sim, isso mesmo, o maior segredo é não haver mistério algum, eu soube, felizmente.

Grande abraço,

Úrsula Avner disse...

Oi Tânia,

muito bonito e expressivo texto ! Meu carinho... Bj.

Rita Contreiras disse...

Lembrei da chapeuzinho, perguntando para o Lobo:- Para que esses olhos tão grandes?Acho que nosso corpo revela os anseios e angústias da nossa alma, o desejo mais profundo que a exist~encia aos poucos nos vai revelando. Seus olhos traduzem a profundidade com que sempre olhou a vida. Perfeito esse seu post! sou sua fã! Há muito tempo...

Denise disse...

De tão linda que é essa narrativa deixou-me com inveja desses olhos grandes de Sentir (acredite ha os que olham apenas o que se vê,o que não me parece ser o seu caso,tal profundidade no que diz).
Eu que os tenho pequenos,e nem sempre sabedores de olhar alem do que se é passivel de ver,fiquei aqui encantada.



carinhos meus

Tânia regina Contreiras disse...

Úrsula, querida, um grande beijo e grata pela visita!

Tânia regina Contreiras disse...

Rira, que essas duas grandes bolas possam, de fato, acompanhar com profundidade as coisas da vida. Empatamoe então, fã e fã! rsrs
Beijos

Tânia regina Contreiras disse...

ò, Denise, grata pelo carinho e pela visita.
Beijos

pablorochapoesias.com disse...

Desejo que cntinue cantando e encantando, como disse Cecília Meireles e que seus olhos nunca deixem de expressar o que tem tua alma! Adorei teu blog! Minha admiração!

Tânia regina Contreiras disse...

Pablo, obrigada pela visita, já visitei seu espaço e certamente ficarei assídua frequentadora.

Beijos, poeta!

Bípede Falante disse...

Tânia, tenho visto seus comentários no Mínimo Ajuste e já entrei aqui algumas vezes. O seu blog é de uma qualidade invejável. Se você desejar participar do Mínimo como autora, escreva para o blog para receber a permissão. Seria uma honra ter você conosco.
Eu sou a bípede, a administradora.
Abraço.

Juci Barros disse...

Tens toda a lincença para fazer das palavras de Cecília suas. És uma poeta das grandes, não sei se de olhos tão grandes assim, mas de grande visão. Beijos.

Juan Moravagine Carneiro disse...

Em certo sentido me fez lembrar do poema (Tabacaria), do Fernando Pessoa...

Belo texto

E agradecido pelas visistas ao Rembrandt

Inês disse...

Olhos certamente lindos.
Bela escrita!
Um beijo!

Tânia regina Contreiras disse...

Olá, Bípede, será um prazer colaborar com vocês, Muito grata pelas palavras e presença.
Beijos

JucY, obrigada, querida, pelas palavras e um grande beijo.

Juan...lembrar do Pessoa...a minha pessoa sente-se em júbilo só pela lembrança! rs beijos


Inês, obrigadaço pela presença carinhosa.

Beijos

nydia bonetti disse...

Tania, encontrei hoje este meu poema e me lembrei de você:

são belas as violetas - porque são flores
e mesmo que não fossem flores seriam belas

porque são belos todos os viventes, todos são
filhos da mãe natureza

são belos todos: homens e mulheres, velhos
e meninos tudo que vive é

até o que não vive - como as pedras, até o que
parece não ter vida

é preciso regar, é preciso cuidar, é preciso que haja sol

beijooos.