1 de maio de 2010

Floresta de jabuticabas



Quem me presenteou com essa pequena pérola em forma de texto foi o Ricardo. Ele é o amigo querido do qual falei no último post. Foi quem associou meus olhos grandes à amplitude do meu olhar. Também associa-os à jabuticaba. Psiquiatra, foi quem respondeu, um dia, quando o conheci, à pergunta que refletia minha obsessão pela normalidade. “Como é que alguém sabe que é normal?”. Quando é feliz. Foi essa a resposta que me deu sem pestanejar. Uma palavra, uma frase, pode mudar um destino. Mudou o meu. Eu já desejei muito, e em vão, ser absolutamente normal – e sofria com isso! Hoje quero apenas é ser feliz. Isso é o normal!

Divido com vocês o presente que é meu...

Uma égua.

Tudo começou numa floresta de jabuticabas...

Túrgidas, globosas e apetitosas. A égua primeiro sacudiu a crina fácil, vasta e branca como a neve do topo da montanha, e relinchou gostosamente, erguendo as duas patas para o mais alto do alto. As frutas maduras cobriam a pele dos troncos como incontáveis olhos, negros e brilhando, brilhando de cegar até o mais forte dos machos. Que mais fazer senão come-las, devorá-las todas aos bocados, deixando o caldo cremoso e púrpura escorrer pelo seu pescoço de gazela-égua, longo e elegante como a haste delgada dos ciprestes em noites de lua cheia?

E assim a égua fez, não sem antes celebrar um sagrado e silencioso momento, comungando seu desejo, trêmula, com a terra-mãe, ciscando com as patas posteriores o chão e a relva macia da floresta encantada.

E depois, saciada e feliz como uma fêmea (retorcida de tão nua) que acaba de amar a si própria, com o corpo e as patas pingando a seiva doce e selvagem das jabuticabas maduras, atirou-se desembestada, de pura alegria e sem demora, para o alto da montanha que tudo havia testemunhado.


Ricardo

22 comentários:

Gerana Damulakis disse...

Ah, Tânia, também gostaria muito de alcançar tal normalidade, ops!, felicidade.
Mas, a satisfação total pode gerar tédio. Fiquemos, portanto, um pouquinho anormais.

A égua saciada saiu correndo alegre. Chegará ao alto da montanha cansada.
Por associação, lembrei do ditado: "O topo é solitário, mas a vista é linda".

Marliborges disse...

Realmente é uma pérola esse texto! Belo presente, que bom que compartilhou com a gente. Bj e bom findi

pablorochapoesias.com disse...

Excelente! Parabéns Tânia pelo blog maravilhoso e rico. Parabéns por manter-se aberta à palavra amiga. Parabéns pela busca tão somente da felicidade. Parabéns pela propriedade do post de hj. Por fim, transmita meus sinceros parabéns ao Ricardo pelo poema belíssimo! Bjs!

Marcantonio disse...

É um belo presente. Uma árvore de tantos olhos não pode ser senão a árvore da vida.

Ouvi falar dessa tal normalidade. Para mim, ela é como as casa mal-assombradas, muitos juram que existem, mas jamais morei em uma delas. Mas, se é mesmo sentir-se feliz,não é tão raro que eu esteja normal.

Um abraço, Tânia.

Tânia regina Contreiras disse...

Gerana, penso que a felicidade é a busca por aqui, o encontro é para outro Mundo. Mas a conquista diária, pedacinhoa pedacinho...essa, sim, vale a pena. É a busca de se ser o que se é.
E o ditado já é um poema, não?: O topo é solitário, mas a vista é linda!" Grata pela presença.
Beijos

Pablo, obrigada, transmitirei, sim, sua mensagem ao Ricardo. E agradeço muito sua vinda aqui.

beijos




Marli, tenha também bons dias durante toda a semana.Grata pela presença.

Beijos


Marquinho, a normalidade é mesmo uma casa mal-assombrada, em todos os sentidos, eu diria. A frase curta fala-nos tanto da necessidade de sermos simplesmente nós mesmos, longe desse impulso padronizador do mundo...É isso, ser feliz deve ser o anseio, ao menos.

Abração e obrigda mais uma vez pela sua presença tão querida.

Denise disse...

Merecer tal poema é apenas para quem sabe que caminhar é a busca,e buscar já é de certa forma SER .

"E depois, saciada e feliz como uma fêmea (retorcida de tão nua) que acaba de amar a si própria".

Só por esta frase,um homem que conhece da natureza feminina e que conhece sobre a vida.

lindo por demais!

Tânia regina Contreiras disse...

Denise, sem dúvida um homem que conhece a natureza feminina. Também amei o texto poético!
Beijos

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Tânia, engraçado, a Ludmilla falou em vida normal em seu blog, ainda agora eu li. Isso tudo está me fazendo pensar.....

Tânia regina Contreiras disse...

Oi, Wal...estaremos girando em torno da normalidade, querendo-a...expulsando-a... Quem sabe?

Beijos

Juan Moravagine Carneiro disse...

Este seu poste me deixou aqui pensando sabe...Talvez em nossas respectativas vidas nos cobramos demais...buscamos muito novas "experiências", e esquecemos das coisas simples...esquecemos da felicidade....da cor dela....do cheiro dela...

Agradecido pelas visitas ao Rembrandt

Gabriel disse...

Que lindo, simplesmente maravilhoso, me falta palavras para descrever o quão lindo é esse seu tesxto. Parabens!

Janaina Amado disse...

Tânia, vim visitar seu espaço, compartilhamos o Minimo Ajuste. Senti muita sensibilidade aqui, e o texto do Ricardo é realmente um grande presente, pra se guardar a vida inteira. Abraços.

Senhor da Vida disse...

Passando para dizer que fiquei feliz com sua visita, e parabenizar pelo blog, complemento que parte de mim e amor e a outra, tambem.Amei seu blog, voltarei sempre que der, bjs!

Tânia regina Contreiras disse...

Meninos, obrigada pela visita. Não sei se as pessoas têm ideia do quento é rica essa troca através dos blogs. Não os leio por obrigação, leio por inspiração. Uma palavra, uma frase ou um texto impulsionam a minha vida. Penso que é assim com muitos de nós. Obrigada, de verdade.

Beijos,
Tânia

Valéria Martins disse...

Amei a definição do seu amigo sobre ser normal. Eu sou, então, a maior parte do tempo.

E as jabuticabas, hum...

Tânia regina Contreiras disse...

Olá, Valéria, obrigada pela presença. Pois então, ser normal = ser feliz!!! Isso é tudo, que bom, não?

Beijos

Sylvio de Alencar. disse...

Muito bom: redondo, cheio; cantando a natureza e suas manifestações...: árvore, frutos, animal... Muito legal mesmo. Vou lá conhecê-lo, sou fã de psiquiatras.

Outra coisa: a resposta dele do que pode ser a normalidade, foi interessante: felicidade requer uma certa justeza consigo própria, um certo exercício de auto conhecimento; uma resposta sensata.

Abrçs.

Tânia regina Contreiras disse...

Olá, Sylvio, obrigada pela presença. Verdade, para a felicidade é necessário saber-se, conhecer-se, assumir-se...enfim.

Abraços

V. Linné disse...

belíssimas imagens poéticas.

adoro presentes assim.

Tânia regina Contreiras disse...

Grata, Vinicius, pela visita. Adorei seu perfil (acabei de ler) e vou atrás de mais...

Abraços,
Tânia

Marcia Gomes disse...

Arre, égua! Esse Ricardo é mesmo uma pérola. Lindo presente. Mas mais lindo ainda foi ele ter te respondido que ser normal é ser feliz. Bjs

Tânia regina Contreiras disse...

Foi, sim, Marcinha: ouvir de um psiquiatra renomado, competente e sensível esta resposta foi mais-que-importante.

Beijos e grata pela sua tão bem-vinda presença!
Beijos