28 de abril de 2010

Todas as faces




Não, não se pode querer tudo. !Não se pode??? Como não? Às vezes “tudo” é justamente a parte que me falta, a alma-gêmea do meu “nada”, a possibilidade da minha inteireza. Lembro de Mércia, um tanto colérica, enfatizando que a partir de agora vou querer tudo, por que não tenho o direito a ter tudo? Mas será que ela não tem razão...não será que é preciso alcançar o tudo para ir além dele? O que vem além do tudo? Ao nos sentirmos plenamente inteiros, que caminho escolheremos tomar?

Ontem eu também desejei ter tudo – verdade seja dita! Pra mim é um tanto evidente que os tudos são diferentes, e variam com a extensão dos sonhos. Ainda assim, tudo é tudo, seja qual for o seu diâmetro, o seu comprimento, a sua largura.

Pois ontem achei alguns minutos para contemplar essa paisagem urbana que ainda conserva umas poucas áreas verdes. Olhei pra o céu, rocei mentalmente a minha pele na epiderme do oceano profundo, divisei a distância entre nós que parecia encolher-se – e sonhei!

O céu aprisionado no condomínio de luxo à minha frente era meu. Não havia paredes, portões, cercas eletrificadas que impedissem o céu aos meus olhos. A placa no alto do prédio anunciava: dois quartos, suíte, área de lazer, piscina, quadra esportiva...e no entanto não puderam oferecer o charmoso brilho de Vênus, que agora pairava por sobre a cobertura, mas era inteiramente minha!

Lembrei de Deus de repente, olhando a estrela no alto. Deus...mas que Deus??? Por frações de segundos, fiquei sem saber a que Deus evocava, como era ele e se, de fato, ainda existia. Revi todas as faces de Deus que desenhei ao longo da vida. Vi o Deus frustrado e hostil da minha infância, que descia a mão sobre o mundo e o fazia ruir. Vi o não-Deus da minha pré-adolescência, a mentira deslavada que convencera a quase uma Humanidade inteira. Vi o Deus que se aproximou de mim fazendo chistes pra conquistar a minha simpatia. Vi a mim e a Deus unidos em pé de igualdade. Vi o Deus da minha origem interiorana, Deus dos matos, dos brotos do feijão rebentando, Deus que silva, coaxa, assovia e voa.

Inevitavelmente, lembrei das experiências recentes – mas findas – de um Deus complexo, um Deus que resolve equações complicadíssimas, um Deus que objetivamente convida-nos a nos tornarmos deuses e que oferece enigmas e enigmas a serem decifrados por aqueles que se julgam destacados do mundo...


Tantos deuses, de tantas faces, acudiram-me nas horas de súplicas...tantos deuses atormentaram-me com palavras longas, com lengalengas e ave-marias... quantos deuses morriam pra que a solidão devastasse a alma, volvesse o solo vazio, semeasse, germinasse, brotasse – a solidão é uma semente levada pelo vento às paisagens mais profundas da alma.

Não, Deus ainda existe. Para sempre existe. Porém, diante do condomínio de luxo, sob a brisa do fim de tarde – duvidei! Monstruosa eram as feições do Deus quando busquei fundir todos os seus rostos, integrar todas as partículas deixadas ao longo da caminhada. Às vezes penso mesmo que é o passado o responsável por todas as nossas angústias, que é de lá que retiramos a matéria-prima para as dores do presente. Deus existe, Deus não existe. Existe. Não existe. Existe. Não existe.
Não, não existe esse Deus complexo por cujo caminho andei passando. Não existe esse Deus que codifica o Mistério para fazê-lo inacessível a muitos. Esse Deus não existe e o rápido brilho de Vênus mais pareceu uma piscadela de confirmação ao meu pensamento. O que existe – isso é verdade – é uma força cósmica multifacetada, dialetos de uma Língua única. A Deus falamos com todas as línguas, adequamos o Deus à nossa região, à nossa paisagem, ao nosso clima, e descemos das colinas, tantas vezes, em direção ao Inferno, quando queremos falar com o criador.

Olha lá! – atentei-me de repente. Era aquele inseto verdinho que aprendi a gostar ainda na infância, na vida das pequenas cidades do interior. Esperança! O bichinho apareceu não-sei-de-onde e pousou na minha perna esquerda. Ensinaram-me que quando aparece a esperança – esse inseto verdinho que tem gente que confunde com gafanhoto, não entendo como não veem a diferença – algo de bom está por acontecer. Muitas das crenças que adquiri nas vivências interioranas – onde são tantas as lendas, as histórias bizarras correm soltas –, fui deixando para trás. Algumas outras, especialmente, acompanham-me até hoje e me acompanharão para sempre. Não há quem me faça duvidar de que a esperança é um bom presságio e é inevitável que ela mude meu dia, para bem melhor, quando aparece de repente.

Era noite já, Vênus já ostentava uma imponência discreta, a suave escuridão acolhia minha alma e a esperança voou para o arbusto do meu lado direito. Sem arredar pés, o bichinho observou a transformação do meu semblante quando a Lua, enfim, iluminou meu olhar. Antes que eu me levantasse para ir embora, o inseto bateu asas e sumiu na escuridão. Procurei com os olhos, não estava em lugar algum. Senti falta do bichinho, mas...não se pode querer tudo. !Não se pode? Como não?

19 comentários:

Juci Barros disse...

Incrível texto. Também aprendi gostar da esperança pela mesma lenda, como reconheci todos os deuses.
Beijos.

Aluysio Robalinho disse...

Querida baianinha. Desconfio que para ter tudo é preciso abrir mão de tudo, chamar tudo de 'meu' desde que também considere tudo como de todos, encarando as apropriações como aluguéis temporários e não posses definitivas. Definitivas? Isso não existe, pois elas terminam na nossa consabida finitude (ou finitudes).
Beijos.
Alu

Tânia regina Contreiras disse...

Olá, Juci, obrigada pela presença. Pois então, nossa esperança é verde, mas os sonhos são multicoloridos! Beijos

Tânia regina Contreiras disse...

Queridíssimo Alu, a Casa da Imaginação, meu espaço roxinho está em festa e se sente honrada com a sua presença. Sábias suas palavras: abrir mão para ter! E isso dá um novo post, quem sabe aconteça?

Beijos,

Marcantonio disse...

Nesta manhã de tantas pressas, o seu texto me sequestrou. E valeu a pena. Há imagens belas nesse recitativo tão envolvente, que vai da sensação ao pensamento e a ela retorna com outra face. Eu diria que o nada era tudo o que havia antes das perguntas chegarem aos olhos. Tudo é aquilo que as perguntas inventaram e o olhos não viram. Mas existe sim esse tudo-parte, todo um universo edificado sobre a prioridade dos nossos corações. Bonito demais esse parágrafo sobre o Deus que adequamos à paisagem, "Deus que silva, coaxa, assovia e voa"!

Um abraço, Tânia.

Anônimo disse...

Querida amiga,

Você me fez lembrar da História do "bicho homem" na "brincadeira de roda" do poeta Gonzaguinha:

Essa gostosa brincadeira que faz entendermos que "tudo é nosso e sempre esteve em nós"... afinal, como a tal brincadeira diz: "somos a semente, ato, mente e voz"...

Não vejo a hora de entrar e fazer parte dessa brincadeira, viu?
Enquanto não sai o blog, vou brincando, saboreando e violetando por aqui... rs.

Bjo.

Sam

Tânia regina Contreiras disse...

Marcoantônio, sua presença é inspiradora. Aqui, ali, em outros blogs que acompanho. Grata por isso.
Grande abraço,

Tânia regina Contreiras disse...

Sam, amigo querido, pelas visitas que você me faz, vou apostando, sim, que você vai ficar roxo (ou violeta..rs) de vontade de brincar de blogar. E vou esperando acontecer. Acho que não demora...

Beijo grande, querido,

Marcia Gomes disse...

Coincidências não existem, nós sabemos disso. Achei interessante que você escreveu um post que fala do Tudo e de Deus no mesmo dia em que eu também escrevi um post falando sobre o mesmo tema. Vá saber... Mistério... beijos

Efigênia Coutinho disse...

Tânia Regina Contreiras
Valeu ler você neste texto , que impreciona , no conteúdo que desenrola a fantasia vesos realidade, meus cumprimentos, aqui de New York,
Efigênia Coutinho

Tânia regina Contreiras disse...

Marcinha, estávamos sintonizadas nesse Tudo-Nada/Nada-Tudo...Nada estranho: adentramos o mesmo éter!

Beijos

Tânia regina Contreiras disse...

Olá, Efigênia, abraços baianos direto para New York e obrigada pela visita!
Beijos

Juan Moravagine Carneiro disse...

A realidade multifacetada...o tempo descancando ao nosso redor...nosso passado as vezes nos visitando...Você consegue caminhar com tanta tranquilidade entre as brechas do tempo...!

Agradecido pela visita ao Rembrandt!

jefhcardoso disse...

Tânia Regina, obrigado por seu gracioso comentário em minha crônica.

Grande abraço!

Jefhcardoso

Tânia regina Contreiras disse...

Juan e Jefh, abraços aos dois! Fico na espera, sempre, de um novo post.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Querida, nós ocidentais, não podemos fugir da educação judáico-cristã-islâmica, que diz que não se pode ter tudo.
Só que Deus, este disse ao nacermos, que podíamos ser tudo, fazer tudo, que o mundo era nosso.

Vamos lá arrebemtar com essa educação babaca.

Queiramos tudo e depois, de novo!

Gerana Damulakis disse...

Bonito texto, gostosa fluência.

Tânia regina Contreiras disse...

Walkiria, acho que sim, querer tudo é bom. às vezes quero.
Grata pela sua visita.

Gerana, beijos pra ti, obrigada pela presença.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

queira sempre