5 de abril de 2010

Mãos de chuva e olhar obsceno



Olhar para a pessoa por quem bate seu coração e dizer-lhe que as suas mãos são tão menores que as mãos da chuva não é coisa para qualquer um. E o poeta E. E. Cummings (1894-1962) soube fazê-lo. A sua poesia – traduzida por Augusto de Campos e musicada pelo nosso Zeca Baleiro – é linda ! (Veja o poema no final desse post).

Na próxima “encadernação” quero nascer artista, essa gente que já chega com o olhar enviesado e, em vez de perder seus dias tentando compreender o mundo, começa desde cedo a abrir caminhos inusitados – subvertendo, transgredindo, tingindo e talhando as formas toscas que pretensiosamente chamamos de realidade.

Nunca é tarde, porém, para tentar sair dos trilhos que limitam os nossos passos e apontam uma direção única – quem sabe tenhamos todos essa inclinação para as artes, e para tantas outras coisas, uns mais, outros menos, uns descobrem a tempo de serem e fazerem felizes, outros morrem sem nunca ter podido explorar as infinitas possibilidades que trazemos ao nascer...


Ontem recebi de um amigo a sua primeira criação literária, posso assim dizer, depois de anos trabalhando com a escrita, e competentemente escrevendo, diga-se de passagem, mas dentro da objetividade que a sua profissão de jornalista exige. Agora não, a viagem foi outra, a criação veio com a riqueza de uma singularidade que vai se tornando inevitável quando acordamos para a certeza de que, sim, há vida antes da morte!

O texto é envolvente, a linguagem moderna, o tema inevitável para quem, como nós – eu, ele... – flerta, por natureza, com a transcendência. Li e fiz silêncio. Silêncio de surpresa, porque não conhecia esse seu lado tão belo, silêncio de leitora alimentada por breves momentos de algo que não tem preço, silêncio sagrado, de compreensão, de quem vai, cada vez mais, ficando convicta de que é preciso – sim, sim e sim!!!! – em algum momento de nossa passagem por aqui viver a plenitude de nossos sonhos, de nosso ritmo interior, às vezes abafado uma vida inteira.

Nascemos para ser felizes. Parece um chavão, dizemos isso tantas vezes, mas de uma forma mecânica, superficial, sem a convicção profunda que essa verdade guarda. Mas é certo que nascemos para a felicidade, e nos perdemos desse caminho tão logo nascemos, por uma série de razões que levam uma vida para ser compreendidas. Mas nunca é tarde...

Dentro desse contexto, lembro que aos 11, 12 anos estudei, na cidadezinha do interior onde morei, num colégio de freiras. Isso faz tempo e o falso moralismo da Igreja Católica era, imaginemos, bem mais acirrado que nos dias de hoje. Boa aluna de português, a freira (uma alagoana) que ministrava as aulas certa vez chamou a minha atenção para a forma como eu escrevia a letra “i”, que era, segundo ela, “obscena”. Na minha ingenuidade dos 11 anos, menina do interior, fiquei sem compreender o que aquela mulher me dizia e não ousaria perguntar nunca, de modo que passei a minha vida inteira olhando para os “iis” que eu escrevia com um certo temor de estar, de algum modo, transgredindo não-sei-bem-o-quê. Meu “i”, assim como todas as letras que eu desenhava, ganhava um certo movimento, soltava as pernas de um lado e do outro, tinha um círculo em cima, em vez de um ponto, e um anseio íntimo de transformar-se em todas as coisas que a minha imaginação solicitasse. O que as minhas mãos faziam, sem que eu pensasse, era rebelar-se contra as formas rígidas que me foram impostas na alfabetização. Era dizer não à realidade estática das letras e do mundo. Era querer voar. Mas a mulher que se dizia “esposa de Jesus” vira obscenidade no meu anseio pela liberdade de expressar-me, na minha reivindicação pela singularidade. E, sem que a sua ignorância e seus próprios desejos reprimidos permitissem saber, tolhia-me ainda nos meus primeiros passos.

Quando crianças, somos tal qual cimento fresco, tudo fica marcado e, às vezes, definitivamente marcado. Salvam-se algumas almas (as rebeldes, talvez), porque insistem em ouvir as tantas vozes que continuam a lhes falar no decorrer da vida. A mensagem repressora e equivocada da freira certamente ficou registrada no meu inconsciente de algum modo. E criou uma espécie de ambigüidade na minha alma, porque tudo que passei a ver se estendendo para além dos limites do convencional despertava-me a sensação de que estaria ferindo os pudores de alguém. A liberdade é obscena. Criar é obsceno. Ultrapassar os limites impostos é obsceno. É obsceno dar novas formas, inventar, subverter a ordem das coisas, buscar cores inéditas, modelar, esculpir, pintar, dançar, ser infinitamente livre e eventualmente feliz.

Mas a maturidade vem e nos salva, quando nos permitimos. Outro dia adicionei uma nova palavra ao meu vocabulário, porque gostei do sentido mais amplo que ela encerra: Senescência! Olhando cruamente, pode causar rejeição, resistências, porque o termo refere-se ao processo de envelhecimento no nível celular e a tudo relacionado a esse processo. Mas esta é a forma ocidental de encarar uma transformação natural e rica em beleza, que é o amadurecimento. A Senescência é o correspondente da adolescência na maturidade e um momento que a Natureza oferece-nos como oportunidade de viver a existência de uma forma plena, sem os conflitos – se assim o soubermos – que nos impedem de realizarmos o que quisermos, de sermos da forma que essencialmente somos, explorando todos os dons que ficaram adormecidos, vivendo os sonhos que deixamos no meio do caminho.

Não estranho que tanta gente venha a descobrir talentos depois que criam os filhos, que escolham, então, novas profissões, que descubram o grande amor da vida, que escrevam seu primeiro livro, que, enfim, permitam-se ser “obscenos”, dando novas formas ao que parecia inerte, permitindo-se ser do jeito que são, com todos os seus paradoxos, suas assimetrias...enfim...VIVENDO DE VERDADE, porque é existe vida antes da morte.

Dia desses me perguntava se a Irmã Maria Celina (a freirinha que implicou com as pernas do meu “i”) ainda era viva e onde estaria agora... Ah, se a reencontrasse eu a olharia tranquilamente nos olhos e agradeceria o caminho que tive de percorrer até entender por que é perigoso fazer dançar as letras e colocar um círculo no meio das pernas de um “i”. Mas o tempo passa e já não é possível dialogar diretamente com o passado. Mudamos com o tempo, mas não naquilo que nos é intrínseco: este meu olhar para a vida é, de fato, obsceno!


Nalgum Lugar


Composição: E. E. Cummings



Música: Zeca Baleiro



Nalgum lugar em que eu nunca estive


Alegremente além


De qualquer experiência


Teus olhos tem o seu silêncio


No teu gesto mais frágil


Há coisas que me encerram


Ou que eu não ouso tocar


Porque estão demasiado perto


Teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra


Embora eu tenha me fechado como dedos


Nalgum lugar


Me abres sempre pétala por pétala


como a primavera abre


Tocando sutilmente, misteriosamente


A sua primeira rosa


Sua primeira rosa


Ou se quiseres me ver fechado


Eu e minha vida


Nos fecharemos belamente, de repente


Assim como o coração desta flor imagina


A neve cuidadosamente descendo em toda a parte


Nada que eu possa perceber neste universo


Iguala o poder de tua intensa fragilidade


Cuja textura


Compele-me com a cor de seus continentes


Restituindo a morte e o sempre


Cada vez que respirar


Não sei dizer o que há em ti que fecha e abre


Só uma parte de mim compreende


Que a voz dos teus olhos


É mais profunda que todas as rosas


Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas


Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas.

5 comentários:

Cristiano Contreiras disse...

Pois, viver a própria obscenidade é estar livre? O importante, dentro ou fora do âmago, é não estar condicionado às barreiras do convencionalismo. Viver é ultrapassar barreiras, combater os próprios destinos sem as rédeas da imposição de uma sociedade, irrevogavelmente, limitada.

Limitada de vida, limita de sabedoria, limitada de constantes limites próprios.

...quanto à velhinha Celina, que Deus a tenha - ou não, vai saber se ela mesma tinha sido tolhida, ainda criança, por escrever um "a" ou "b" de modo obsceno à sua, então, madre superior, rs...

Beijo!

Tânia regina Contreiras disse...

Pois então: a "velhinha" nem era velhinha quando achou obsceno meu "i". Ficava vermelha quando recebíamos a visita do padre, essa parte não contei...rsrs

Grata pela visita, volte sempre, apimentando o blog com a sua presença!
Bjos

Anônimo disse...

Guardei muita obscenidade e percebo que, se não abrir as pernas do alfabeto inteiro irei perder a real comunicação da minha essência.Só o tempo nos devolve o que verdadeiramente somos, aquilo que já éramos antes de permitir as intervenções do mundo.Os transgressores vieram dotados de uma impermeabilidade que certamente construíram ao longo das suas existências. Belo texto! Instigante, provocante e oportuno para mim. parabens! Bj

Tânia regina Contreiras disse...

Obrigada, mais uma vez.

Abraços

Rita Contreiras disse...

Guardei muita obscenidade e percebo que, se não abrir as pernas do alfabeto inteiro irei perder a real comunicação da minha essência.Só o tempo nos devolve o que verdadeiramente somos, aquilo que já éramos antes de permitir as intervenções do mundo.Os transgressores vieram dotados de uma impermeabilidade que certamente construíram ao longo das suas existências. Belo texto! Instigante, provocante e oportuno para mim. parabens! Bj