4 de abril de 2010

Clair de lune e os encontros impossíveis





Clair de Lune, em muitos momentos melancólicos, foi o tema musical da minha tristeza. Gosto de imaginar uma música tocando ao fundo de meus sentimentos mais emergentes, algo como uma trilha sonora, que realce dores e alegrias, esperanças e desenganos. Esta era uma mania antiga, e secreta – imaginar uma música tocando a cada sofrimento ou alegria, cada esperança ou desilusão –, que volta ainda hoje, como que reeditando tempos já idos..

Há pouco procurava a música do momento, para unir-se a esse insólito estado de espírito de hoje, mas nada encontrei. Como o dia está fechado por nuvens escuras, lembrei de Clair de Lune, não porque eu esteja triste, mas porque me pareceu que o dia tivesse amanhecido melancólico, esboçando um sorriso no começo da tarde para retomar a tristeza mais tarde, no seu encontro com a noite, que já cai.

Dia desses parei para observar atentamente o anoitecer e tentar encontrar o exato instante em que o dia vira noite. Essa é uma passagem sutil, onde a luz vai se dissolvendo aos poucos na escuridão; onde o masculino é ofuscado pelo feminino, “hora da ave-maria”, como aprendi na infância de influências católicas e reforcei mais tarde, noutras andanças, já sob outras influências.

Mas é impossível detectar o exato instante em que termina o dia e começa a noite. Há, sim, um momento em que ainda encontramos vestígios de luz nos céus, embora seja ela uma luz ensombreada, quando também podemos constatar a presença, ainda invisível, da noite. Escapa-nos, no entanto, e por mais atentos que estejamos, o instante-X, aquele em que, rapidamente, dia e noite se tocam, roçam a pele um no outro, antes que as estrelas comecem a aparecer nos céus.

Mesmo na cidade, em zona urbana, se apurarmos os ouvidos vamos distinguindo no prelúdio da noite o som emitido por alguns insetos que são uma espécie de “anunciadores do anoitecer”. O canto das cigarras parece ser a abertura da sinfonia noturna, ao qual se seguem, depois de um tempo, outros cantos, e mais outros, até que a noite deite seu manto sobre nós, acolhendo a luz no seu ventre.

Lembro do filme – tantas vezes exibido na Sessão da Tarde, na tevê, mas que não me canso de ver – O Feitiço de Áquila, de 1985. Para lembrar, o bispo de Áquila, uma cidade medieval famosa por sua prisão, lança uma maldição sobre o casal de apaixonados Isabeau (Michelle Pfeiffer) e Etienne Navarre ( Rutger Hauer), de forma que de dia ela é sempre um falcão e à noite ele se transforma num lobo, impedindo-os, assim, de se entregarem um ao outro. Durante o tempo em que estão sob o efeito do feitiço, o casal só pode encontrar-se num rápido momento, no crepúsculo, um instante fugaz que seria exatamente esse tempo que escapa à nossa percepção, por mais que o busquemos.

O filme possibilita, evidentemente, muitas leituras. Mas o que mais me chama a atenção nele é justamente esse instante fugidio, quando dia e noite se encontram e se perdem novamente, algo como uma metáfora que descreve a impossibilidade do encontro pleno entre o feminino e o masculino.



Mesmo nessa loucura da vida urbana, numa cidade que já deixou de ser a velha Salvador buscada pelos sulistas por oferecer tranqüilidade, ainda é possível encontrar um momento e um lugar para a contemplação do infinito, para ver cair a noite e lucubrar sobre a poesia do tempo. E foi num dia desses que compreendi exatamente a força feminina da noite, a hora da ave-maria, o ápice do poder feminino espargindo silenciosamente seus fluidos, momento em que a dama de negro cavalga livre, deixando uma misteriosa fragrância no ar.

Quem cresce, como eu, em pequenas cidades do interior acaba conhecendo a face mais extraordinária da noite e aprende a respeitá-la. São muitas as lendas que têm a noite como cenário e muitas delas envolvem a figura feminina, como mulheres que se transformaram em pássaros e emitem sons sinistros madrugada adentro, outras que aparecem de repente no meio de estradas batidas e crescem diante de olhares aterrorizados, enfim, misteriosa é a noite, misteriosa é a noite que cai sobre as pequenas cidades onde ainda é possível olhar para os céus e encontrar espaço para os sonhos.

De Clair de Lune ao instante fugaz entre o dia e a noite, o domingo vai, assim, terminando, felizmente, porque o domingo é um cachorro escondido debaixo da cama, como disse Quintana, e, mesmo sem nunca ter entendido o sentido de suas palavras, concordo...

4 comentários:

Claudinha Antunes disse...

Tânia, querida!
Já vi que vou passear muito por aqui... Porque gosto de roxo, de violeta e, especialmente, de você!
Adorei a levesa e poesia dos seus textos!
Parabéns pelo novo blog, beijinhos

Tânia regina Contreiras disse...

Claudinha, logo, logo incluo os Cacarecos como link (estou arrumando a casa nova ainda..rsr), mas, sim, nos vejamos: você por aqui, eu por lá, porque a recíproca é verdadeira, gosto também de você, é um fato!
Grata pela visita,
Beijos,
Tânia

Cristiano Contreiras disse...

Adorei a plenitude, a beleza, a densidade, a introspecção e a objetividade poética por aqui.

O espaço é amplamente intenso, muito me define, não só pela sintonia das cores - mas, textualmente concreta, pela proposta literária aqui evidenciada.

Gostei da relação de Clair de Lune com o seu íntimo, bem como da referência ao clássico Feitiço de Áquila.

Te sigo!

Beijos

* Espero que não delete este blog! rs

Tânia regina Contreiras disse...

Espero também que eu prossiga...mas, como sabe, tudo é possível comigo! rsrs

Não sou seita, mas, enfim, que venham os afins, caminhando junto, mesmo sem seguir os meus passos.
Bj,
Tania