13 de setembro de 2013

Moldura e cárcere







Desafio Poético com Imagem. Arte: sem referência de autor




Seriam tuas
as flores,
mulher nua
com rabo de peixe.

À porta de
tua morada
curei do vício
das lendas.

Não existias.
Não sofrias no
fundo das águas
com saudades minhas.

Não eras rainha aquática,
e o canto fascinante
no qual me envolveste
era tão-somente o silêncio.

Arribaram-se as
sacerdotisas aquáticas.

Sedutoras sacerdotisas aquáticas.

No infinito das águas eu miro a ilusão.
Não houve moça das águas senão
nos intermináveis devaneios meus.

No infinito das águas eu vejo reflexos.

Nenhuma das ilusões que tive
vieram de longe, de fora:

minhas miragens
sou eu distorcido
no devaneio das águas.

No fundo de mim
mora uma sereia
a quem preciso amar.

No fundo de mim
mora uma mulher
que não sabe caminhar
sobre a terra.

Que mergulha
seu ventre na frieza das águas
e que faz amor diferente.

Mas a ilusão é pano
caindo no último ato
da peça que a gente assistiu.

Eu acordei de um longo sono
e descobri que não há ninguém
por detrás da porta por onde olho.

Curei-me da ilusão de
desejar uma mulher aquática.

Mas não consigo entender
por que os homens não
chegam até a porta
para olhar o mar.

Sinto-me feliz
por ter uma porta
por onde olhar o mar.

Agradeço
por se encontrar aberta
alguma porta.

Adeus, sereia.
Agora tenho porta
aberta para o mar e olho
as ondas quebrarem
sua fúria nas pedras.


11 comentários:

José Carlos Sant Anna disse...

Que sortilégio este poema, Tania. Esta simbiose entre o sujeito e o objeto do seu discurso. Esse fascínio que a "sereia" exerce sobre o homem. Belíssimo! Não poderia ter algo melhor para este sábado, ainda sem degustação de um bom vinho (rs).
beijos, Tania!

Assis Freitas disse...

que poema

de torar



beijo

Ira Buscacio disse...

Tenho vivido dias apertados, onde o tempo é pouco pra coração grande, e isso me afasta com tanta dor que só eu sei. Quero alcançar a poesia, esse ar que me cura os pulmões, mas os dias são de lutas intermináveis. Estou tentando deixar meus olhos aos que amo, como vc, numa tentativa de iluminá-los. A saudade é cortante.

Esses seus delírios são essenciais!

bj,bj,bj

Cris de Souza disse...

Num passo ou passe de mágica...

Beijo, Violeta!

cirandeira disse...

Um mergulho nas variações delirantes do próprio mergulho; a sereia escutando e entregando-se ao
seu canto para então ouví-lo fora das águas...! Muito interessante, esse diálogo, Tânia!!!

um beijo

dade amorim disse...

Este poema é de uma beleza incomparável!
Beijo beijo

Adriana Riess Karnal disse...

ô, que inspiraçao, guria!!!

Sônia Brandão disse...

Canto, encanto, viagem, miragem, no espelho das águas.
Belo, Tania.

bj

jorge pimenta disse...

viagem ao mundo líquido onde todas as portas são cavalos a galope em pradarias femininas, lá onde me encontro, lá onde me perco, aí onde tudo recordo e quase nada esqueço.

admirável, taninha. um beijo grande!

Fred Caju disse...

Tânia, muito bom esse teu poema. Gostei como você foi criativa em explorar a sinonímia de sereia.

marlene edir severino disse...

Tânia!

Pisciana da gema
e com os pés nas nuvens,

"No fundo de mim
mora uma mulher
que não sabe caminhar
sobre a terra."

Adorei teu poema!
Beijão!