4 de dezembro de 2012

Qual a cor do meu semblante?






(Ao imortal artista Arthur Bispo do Rosário)

“Qual a cor do meu semblante?”
Se a resposta não presta
só me resta abrir a porta
e te mandar ir embora
pois esta é a minha senha.

A dois metros do chão
te reconheço
colibri de peito vermelho
e se me olho no espelho
eu vejo Deus.

“Qual a cor do meu semblante"?
E não me venhas falar de raça
achar que a graça divina
chega com reza, oração.

Foi Deus...
foi ele
quem me mandou
achar a pedra que geme
curar a chaga da rocha
abandonar o alicerce
em que a casa se assenta.

É preciso estar
a dois metros do chão
pra conhecer outro mundo
outra dimensão
de anjos
demônios
meus irmãos
meus irmãos...


Hoje estou calma
não preciso de choque elétrico
e afago os versos que gemem
quando têm fome.

Os versos esperneiam
expelem em golfadas
o leite ralo do meu peito.


“Qual a cor do meu semblante?”.
Espera um instante
antes de responder.

Não sabes teu próprio nome?
És bicho que já foi homem?
Há um tambor tocando no teu ventre?
É pela ferida aberta
que ris e que choras?

Pronto
abri a porta:
entra e sê bem vindo!


 "Os doentes mentais são como beija-flores: estão sempre a dois metros do chão”.
 (Arthur Bispo do Rosário)

 Aos que queriam conhecer o ateliê improvisado do artsita,ele fazia uma intrigante pergunta: “Qual é a cor do meu semblante?”. Se não gostasse da resposta, encerrava a visita.


26 comentários:

Primeira Pessoa disse...

ah, esse cara...
eu havia me esquecido dele, sabia?
voce foi busacá-lo de volta pra mim no ano passado.
diante do teu poema, pergunto:
se eu respondesse roxo-violeta ele me deixaria entrar?


beijão, maninha.
r.

Tatiana disse...

Tânia, a Arte de Arthur já me pegou balançando as pernas no ar:

A arte abriga a sucata
acata a insanidade
impacta a morte
A dois metros do chão
a um semblante da porta
não se é mais poeta,
mas um profeta
diante da sorte

Tania regina Contreiras disse...

Qual a resposta cada poeta daria? rs Seria interessante saber...Eu responderia que meu semblante tem a cor de um abismo estrelado.rs
Beijos

Anônimo disse...

A cor de meu semblante é como a cor do rio que passa e que logo adiante, na curva, é lama, é barro, é pedra: é essa metamorfose que, ao mesmo tempo em que é fluida e densa demais para esse Sertão que vai e vive em mim...


beijos,
Sam

Anônimo disse...

A cor de meu semblante é como a cor do rio que passa e que logo adiante, na curva, é lama, é barro, é pedra: é essa metamorfose que, ao mesmo tempo em que é fluida e densa demais para esse Sertão que vai e vive em mim...


beijos,
Sam

Assis Freitas disse...

a tua sensibilidade é instigante Tania, no gesto e na palavra, no verso que espalha: deves ter um semblante de cor rara,



beijo

dade amorim disse...

Muito sensível e perfeito esse poema, em se tratando de Bispo do Rosário e suas sucatas abençoadas.
Beijos.

cirandeira disse...

Teu poema é belo e a homenagem é
merecidíssima.
O teu semblante é multifacetado,
possui todas as cores humanas!!!

um beijo

P.S.: em setembro de 2011 fiz uma
postagem sobre Athur Bispo também,
mas não escreví um poema :)

Ira Buscacio disse...

Taninha, esse poema é uma viagem e tanto! Caminhar nessa realidade, ainda que através do poema, me virou do avesso. Quanta sensibilidade, menina!
bj grande

José Carlos Sant Anna disse...

É maravilhoso o seu poema, Tânia, sobretudo para quem viu de perto a arte de Bispo do Rosário em exposição.
Há um livro publicado pela Unesp em 2010. Não sei se você o conhece. Artur Bispo do Rosário - A poética do Delírio. Marta Dantas. 221p. Custa R$52,00. É um livro de arte em papel couché, ilustrado. Vale a pena conferir.
beijo,

Lu Cidreira disse...

É uma porta que sempre estar aberta para os que se dizem sãos, porem o dificil e se manter dentro dela. Uma obra de conscientização esse chamado em forma de poema.
Muito bem trilhado refletindo no dia a dia do mundo.
Abraço

Eleonora Marino Duarte disse...

meu semblante é roxo-violeta...


um grande poema, bravo!

e ainda me trouxe de volta a lembrança de uma figura que, junto com profeta gentileza, habitaram o meu imaginário por muito tempo e me fizeram acreditar muito cedo em gente de outras estrelas.

depois, conheci o trabalho da estupenda Nise da Silveira e o Museu da Imagem do Inconsciente e me apaixonei pela causa.

um beijo.

Tânia, parabéns!

Francisco Coimbra disse...

Olha, vim seguindo EMD, será? Vim encontrar uma grande poesia, boa Poesia! Beijos

Sônia Brandão disse...

Lindo, Tania.

bjs

eurico portugal disse...

há cores que se não sabem e semblantes que se não definem: dos outros, mas, sobretudo, os de cada um. e as portas? abrem-se ou apenas sugerem estar abertas?

o teu poema tem toda a genialidade que a loucura de rosário instiga.

beijo, taninha!

Wilson Caritta disse...

diria que é um semblante rebelde azul...

eis que loucos não se atrasam
porque são as locomotivas...

beijos Tânia!!!

Fred Caju disse...

Demais, Tania!

Mauro Lúcio de Paula disse...

Tânia,
trabalhei numa editora nos anos 90 que publicou um trabalho muito bonito do artista Bispo, como você descobriu isso! A cor do meu semblante é da cor da saudade numa linda tarde de verão.

Domingos Barroso disse...

acima do chão
há uma leveza
tão densa
...


beijo carinhoso,
Tânia.

Bípede Falante disse...

Meu semblante não tem cor, mas tem memórias, Tânia.
E também reflexo de luz e de escuridão.
Beijosss

Lu Cidreira disse...

Referente ao dia do palhaço!
Estava agorinha mesmo comentando com meu filho isso, pois ele caba de me dizer que não gosta de palhaço, que palhaço faz alegria e, por trás da maquiagem sempre tem uma pessoa triste e melancólica.
Abraço

Carlos Souza disse...

Fiquei um tempo longe, mas voltei. Lindo poema, Tânia!

Luciana Marinho disse...

bispo do rosário é co-movente. linda poesia, linda homenagem. gostei da expressão mais acima "sucatas abençoadas"... beijos, tânia!

LauraAlberto disse...

e deixaste-me a pensar na cor do meu semblante

adorei esta viagem por o universo de um artista que desconhecia

beijinho

será que o semblante tem a cor dos sonhos?

zantonc disse...

Tânia, versos dois metros acima do comum. Bela homenagem a quem traduziu em arte uma experiência no extremo do existir.

Cris de Souza disse...

Belo, belo!!!

Para pergunta roxa: resposta violeta...

Teu semblante, eu beijo.