25 de julho de 2012

(Dos sonhos - I ): a morte é uma orgia!



Era um Carnaval sem música. Festa silenciosa, com um amontoado de gente circulando. “Como assim?”. Pode parecer estranho, mas sonho é sonho, não precisa fazer sentido. Mas faz, pode acreditar. Os detalhes são preciosos quando se trata de entender os sonhos. Creio que, no caso, uma pequena mão de ferro numa porta antiga decifrou o enigma. O objeto era numa casa antiga da infância no interior. Vira de lá, vira de cá, e comentei sobre a primeira casa em que morei ao mudar da cidade grande para outra, então, pequena. A rua era caminho para o cemitério da cidade e todos os cortejos fúnebres passavam obrigatoriamente por lá. Alguém da casa gritava “enterro!”, e lá saíamos todos para a janela alta da antiga casa para “apreciar” o cortejo e saber algo sobre o morto.

  Morreu de quê? – gritava do alto da janela minha avó, e alguém se apressava em dizer sobre a doença do morto.

Eu tinha 7 anos e entendia que aquilo lá era uma festa. A rua monótona ganhava outros ares quando pequenas multidões passavam, silenciosamente, à minha porta. Às vezes os caixões eram pequeninos e eu ouvia, então, minha avó comentar: é um anjinho. Invariavelmente, havia flores, gente sussurrando qualquer coisa com disfarçados sorrisos nos lábios, passos apressados que, estranhamente, afastavam-se do objeto central da “festa”, o ataúde que guardava os mortos, que nunca pude ver.

Decifrar sonhos é uma arte que exige muita sensibilidade. Nele, confundem-se imagens, alteram-se o tempo e a ordem das coisas. Mas não foi tão difícil entender que o Carnaval sem música que aparece recorrentemente nos meus sonhos diz respeito aos cortejos fúnebres da minha infância. O terapeuta foi competente e a descoberta serviu-me para decifrar os carnavais seguintes que apareceriam tantas outras vezes nos meus sonhos, sempre silenciosos.

Minha mente, no entanto, não se contenta com pouco. Dei de querer saber se haveria alguma íntima ligação entre um cortejo fúnebre e o Carnaval. E lá fui eu pesquisar sobre a origem da maior festa do planeta. Carnaval lembra orgia. A morte seria uma orgia?, pensava cá comigo. Várias versões existem para explicar a origem da festa momesca. Como sempre há um mito por trás de tudo, eis que me deparei com Dionísio, o deus grego das festas e dos vinhos, o mesmo Baco romano. Simpatizante que sempre fui do filho de Zeus e Sêmele, não custava saber um pouco mais sobre ele e encontrar, talvez, um ponto de interseção entre a morte e a vida, entre os cortejos fúnebres e a festa profana que põe as pessoas em êxtase.

Depois de algumas leituras, descubro, enfim, que o mesmo deus que levava o êxtase e a alegria ao povo da Grécia, responsável pelas orgias carnavalescas, também era tido como um condutor das almas dos mortos, retirando-as do “inferno” e guiando-as para dimensões mais elevadas. Pois então, as imagens dos sonhos não são, assim, sem sentido, como muitas vezes parecem ser. Por trás dessa confusão de símbolos e imagens há sempre um sentido – quando não vários – que vale a pena decifrar, pois diz respeito ao sonhador, toca a sua natureza secreta, revela aspectos essenciais do inconsciente e reflete nossas faces mais ocultas.
No fundo, no fundo constato que a morte é uma orgia, sim. Silenciosa talvez, mas o êxtase que buscamos através da festa momesca tem o mesmo propósito de transcender a nossa condição humana.
 Salve, Dionísio!  

8 comentários:

Domingos Barroso disse...

O casarão dos meus avós fazia limite o muro do quintal com o cemitério da província
...

Sim, a morte deve ser uma orgia da alma que enfim poderá beber seus vinhos sem que o corpo no dia seguinte sofra por isso...


Beijo carinhoso.

cirandeira disse...

Pois é, Tânia, Vida e Morte estão
intrinsecamente ligadas, embora não
queiramos aceitar. Os mexicanos, por exemplo, fazem a maior festa do
ano no "Dia de Finados", com música, muita comida e bebida, além
das fantasias.
Nossos sonhos são reflexos do que armazenamos, seja de épocas recentes, seja dos nos ancestrais,
acho algo extraordinário, o sonhar,
os sonhos...
Gostei muito de teu texto, até sentí-me nessa janela, vendo o cortejo!

beijosss

Bípede Falante disse...

Morreu quando sonhou que estava viva.
Que bom que você está de volta, Tania.
Eu estou para ir ao correio enviar alguns pacotes para algumas pessoas preciosas.
Mas, estranhamente, embora eu tenha viajado por uns dias, sinto-me tão cansada que preciso de uns dias pra poder fazer o mínimo.
Gostei muito do post.
Essa noite, sonhei com a morte. Sonhei como na primeira frase desse comentário.
beijoss

Daniela Delias disse...

... e a tua palavra muito viva, Taninha!

Sempre bom te ler :)

Um beijão, saudade

Dani

Por que você faz poema? disse...

Queira Deus
que a morte seja,
realmente, uma orgia.
Ando com receio
de ao desencarnar
me deparar com um silêncio sem fim,
já me basta o silêncio destes dias.

Assis Freitas disse...

a morte é uma orgia inevitável, a única e indecifrável,


beijo

p.s. nada no sonho é fortuito

marlene edir severino disse...

Com garantia de que chegará
um dia...

Mas teu texto pulsa, Tânia!

Beijos!

Jorge Pimenta disse...

se a morte é certeza, resta-nos tornar a vida na maior das inevitabilidades.

dionísio... recordaste-me, neste post, um álbum que muito me marcou - música de zeca baleiro (acho) e poemas de hilda hilst.

beijinho, querida amiga, saudando-te neste teu regresso a um novo formato, mas, sobretudo, à força inifinta das palavras sanguíneas!