9 de julho de 2010

O canto que te quero cantar


Nos 30 anos de ausência do Poetinha, essa maravilha de texto, do qual tanto gosto...


Pedro, Meu Filho

(Vinicius de Moraes)


Como eu nunca lutei para deixar-te nada além do amanhã indispensável: um quintal de terra verde onde corra, quem sabe, um córrego pensativo; e nessa terra, um teto simples onde possas ocultar a terrível herança que te deixou teu pai apaixonado - a insensatez de um coração constantemente apaixonado.
E porque te fiz com o meu sêmen homem entre os homens, e te quisera para sempre escravo do dever de zelar por esse alqueire, não porque seja meu, mas porque foi plantado com os frutos da minha mais dolorosa poesia.
Da mesma forma que eu, muitas noite, me debrucei sobre o teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua.
E porque vivemos tanto tempo juntos e tanto tempo separados, e o que o convívio criou nunca a ausência pôde destruir.
Assim como eu creio em ti porque nasceste do amor e cresceste no âmago de mim como uma árvore dentro de outra, e te alimentaste de minhas vísceras, e ao te fazeres homem rompeste meu alburno e estiraste os braços para um futuro em que acreditei acima de tudo.
E sendo que reconheço nos teus pés os pés do menino que eu fui um dia, em frente ao mar; e na aspereza de tuas plantas as grandes pedras que garimpei e os altos troncos que subi; em tuas palmas as queimaduras do Infinito que procurei como um louco tocar.
Porque tua barba vem da minha barba, e o teu sexo do meu sexo, e há em ti a semente da morte criada por minha vida.
E minha vida, mais que ser um templo, é uma caverna interminável, em cujo recesso esconde-se um tesouro que me foi legado por meu pai, mas cujo esconderijo eu nunca encontrei, e cuja descoberta ora te peço.
Como as amplas estradas da mocidade se transformaram nestas estreitas veredas da madureza, e o Sol que se põe atrás de mim alonga a minha sombra como uma seta em direção ao tenebroso Norte.
E a Morte me espera em algum lugar oculta, e eu não quero ter medo de ir ao seu inesperado encontro.
Por isso que eu chorei tantas lágrimas para que não precisasse chorar, sem saber que criava um mar de pranto em cujos vórtices te haverias também de perder.
E amordacei minha boca para que não gritasses e ceguei meus olhos para que não visses; e quanto mais amordaçado, mais gritavas; e quanto mais cego, mais vias.
Porque a poesia foi para mim uma mulher cruel em cujos braços me abandonei sem remissão, sem sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela abandonei.
E assim como sei que toda a minha vida foi uma luta para que ninguém tivesse mais que lutar:
Assim é o canto que te quero cantar, Pedro meu filho...

19 comentários:

pablorochapoesias.com disse...

O que comentar? Um gênio
Parabéns pela sensibilidade, Tânia.

Beijos!

Sandrio cândido. disse...

ainda bem que restou as palavras deste grande homem.

Machado de Carlos disse...

Que bom, quantas coisas belas você nos oferece! Continue assim nos deliciando com as maravilhas das poesias!

Marcantonio disse...

Eu me lembro perfeitamente do dia em que Vinícius morreu. Eu era um moleque de 14 anos que o idolatrava como poeta e letrista e fiquei triste. Se soubesse, eu lhe teria feito uma elegia, então. Com o passar do tempo, ele foi descendo na lista dos meus poetas preferidos, mas ainda estando entre os que, a meu ver, eram grandes. Tem cantos altíssimos, como esse. É sempre bom relê-lo, mesmo porque hoje é sábado.

Abraços, Tânia.

Costea disse...

I see a beautiful angel photo :).
Nice weekend.

Primeira Pessoa disse...

taninha.
ontem passei o dia inteirinho pensando em vinícius, aquele velho safado (rs).

putz... que falta que ele faz...

beijos,
r.

Gisela Rosa disse...

lindíssimo Tãnia lindíssima escolha. Um hino....


obrigada!


beijos minha amiga

Assis Freitas disse...

maravilha, Tania. O poeta, diplomata, compositor, cantor e amante das mulheres deixou suas marcas de existência em todos os sentidos,

beijo

Sél disse...

Olá Tânia
Passando para um visita e ler Vinícius..Bela escolha.
Bom fim de semana.
beijs

Tania regina Contreiras disse...

Oi, Pablo, esse texto do Vinicius é genial mesmo: adorooo!
Beijos, Poeta!

Tania regina Contreiras disse...

Sandrio, as palavras de alguns ficam quando os autores se vão: ficou Vinícius!
Beijos,
Tania

Tania regina Contreiras disse...

Oi, Machado: beleza tem lá, no teu espaço, de montão!
Beijos,
Tânia

Tania regina Contreiras disse...

Vionicius já foi também um poeta dos meus mais lidos, depois vieram outros. Mas há textos dele que gosto muito, como esse. Vinicius não está no topo das minhas preferências, mas algumas de suas escritas me pegam de jeito! rs
Obrigada pelas palavras deixadas no impressões digitais. Quase morri de sem graça que fiquei! :-)
Beijos, Marquinho

Tania regina Contreiras disse...

Costea, obrigada pela presença, um bom domingo pra você!
Abraços,
Tânia

Tania regina Contreiras disse...

Ô, Roberto, Poetas não deveriam morrer, né não? Mas enfim...
Bom ver você visitanto o Roxinho...
Beijos,
Tânia

Tania regina Contreiras disse...

Oi, Gesela, é mesmo muito belo esse texto, não?
Beijos pra você, querida!
Tânia

Tania regina Contreiras disse...

É, Assis, há Vinicius em todos os lados, aqui, ali, acolá. Masrcas que ficaram e ficarão.
Beijos,
Tânia

Santa Cruz disse...

Tania: Não sou capaz de fazer um comentario a tão Grande poeta Brasileiro que tanto gosto Vinicius de Morais,
Um beijo
Santa Cruz

Maria Emilia Xavier disse...

Esse texto me toca muito...Eu adoro...E choro mesmo todas as vezes que o leio.
Homenagem muito legal, ele deve ter adorado.