9 de abril de 2010

Toca-me a alma com teu olhar sensível!




“Palavras de veludo e de seda pálida” são ditas a tantos homens – e há muito tempo – através da poesia feminina. Minha primeira influência poética feminina foi a portuguesa Florbela Espanca, autora das expressões aspeadas no início do texto. Na adolescência, tinha na minha mesinha de estudo, no quarto, de um lado a letra de As Rosas Não Falam, de Cartola, e do outro o poema da Florbela que recordei de um livro de escola, com o título de Eu (...”Sou talvez a visão que alguém sonhou. Alguém que veio ao mundo pra me ver e que nunca na vida me encontrou”). Amei o poema e o lia todos os dias, como uma oração.
É verdade que me identificava com a melancolia da Florbela, com as suas sombras, sua solidão tantas vezes transformada em versos. Mas o que mais me atraía na poetisa portuguesa era mesmo a possibilidade de imaginar, através de seus versos, as figuras masculinas que a inspiraram. Eu lia Florbela tentando captar a essência da alma de seus “musos”.
Efetivamente, a palavra “muso” não existe. Mas não existe apenas por distração, falta de entendimento sobre a transformação que se deu na história do percurso feminino. São muitas as mulheres escritoras, músicas, pintoras, enfim, artistas, que evidentemente têm seus musos inspiradores. Quantas vezes me perguntei: como será o Jonathan exaustivamente citado por Adélia Prado? De que homem fala a Clarice Lispector nas entrelinhas de seus anseios? Quem são e como são esses homens que inspiram a criatividade feminina?
Os musos femininos são mais secretos. É verdade que nenhuma mulher trai seu marido, companheiro, namorado com o muso, mesmo porque algumas vezes ele se encontra a quilômetros de distância da mulher que o sonha. Ainda assim, pela própria história da condição feminina, calada e subjugada por anos a fio, à mulher não é permitido esse tipo de sonho – e o muso não é um sonho qualquer, é a viagem onírica que fomenta a criação feminina.
Eu penso mesmo que todas as mulheres criativas possuem seus musos. A escritora, a poetisa, a pianista, a cantora, a artista plástica, e mesmo as mulheres que atuam em outras funções, mas que também precisam inspirar-se para criar, não deixam de evocar, em alguns momentos, aquele que, de algum modo, as instigam para a criação.
O fato é que – a despeito de não constar a palavra nos dicionários – os musos existem! Eu bem que tenho cá os meus musos, praticamente todos secretos, porque não há por que tornar visível e dar nomes à nossa fonte de inspiração – basta que nasça o poema, a música, a tela com a imagem poética, e é só!
Tal qual o fazem os poetas homens em relação às suas musas inspiradoras, a mulher poeta toma, muitas vezes, como muso o moço de olhar triste e desprotegido (esse muso cabe bem à mulher pisciana), ou o homem de feições viris, o homem nobre, o vendedor simplório, a figura célebre, o escritor, o homem moreno que passa para o cooper matutino – que com seus gestos, seu jeito, suas palavras ativam a imaginação da mulher que escuta e que se deixa embalar pelo ritmo, pela cadência, pelo vigor, pelo corpo, pela poesia .
Aos nossos musos, em nome de todas as mulheres, a nossa gratidão pelas vossas existências!
O poema abaixo completa a homenagem:

Domínio (Série sonetos ao Muso)

Tens em mim um domínio abstrato,
Algo mais que incompreensível!
Toca-me o corpo sem me ter de fato,
Toca-me a alma com teu olhar sensível...

Tens o malte a exuberar perfume,
Tocando as liras deste mundo aflito;
Nas penumbras dos dias, tens o lume,
"Poder do amor", a destilar meu ritmo.

Das entranhas dos teus olhos molhados,
Tens a lágrima a salobrear caminhos,
Mas, da boca tens o doce pecado...
Que beija meu rosto, por breve atalho,
Consagrando o amor à proteção do ninho,
Tens de mim, o reverso, meu amado!

(Núria Carla Ledalge)

2 comentários:

maradanuzia disse...

Tania,

Vc é muito especial, forte, verdadeira, inteira, gosto de ler o que vc escreve.

bj

Mara

Tânia regina Contreiras disse...

Maroca, obrigada pela sua presença e vivam eternamente os nossos musos!

Beijos