18 de abril de 2010

Paisagem primitiva


Penso agora no quanto ele é atraído para o que é estrangeiro, para o que atravessa oceanos e tem cheiro de coisas longínquas, inatingíveis. Lembro disso e imagino se ele soubesse das paisagens mais íntimas, das súbitas semelhanças entre nós e nós mesmos, das rasas poças que refletem com exuberância os dias de abril. Ele não sabe...


Mas eu sei – olhamos diferentemente a vida. Há fatos e espantos para os quais já não há ouvintes. Anuncia-se o grande, propagam-se trovões, tragédias, terremotos, e uma multidão autômata espera a vida acontecer em néon, em cada avenida da terra forasteira.

E enquanto isso...
cíclicas explosões de estrelas
acontecem intimamente.
E enquanto isso...
pássaros inquietos
arranham-me a garganta
pra libertar seu voo.
E enquanto isso...
a inocência primeva
irrompe como diamante
no fundo de cada olhar.
E zumbem insetos
Ruflam as asas aves solitárias
Sapos coaxam
Sibila o vento
Feras atônitas espreitam-me
na sonora paisagem primitiva
de minha alma...


Tânia Contreiras

18 comentários:

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Tania....na paisagem primitiva da minha alma, vc está começando a despontar, e a se fazer presente.

e eu gosto....

obrigada por tudo

Tânia regina Contreiras disse...

Obrigada, Walquíria, pela visita. Estamos caminahndo juntas.

Abraços

Fernando Campanella disse...

Olá, Tânia, passando por aqui para agradecer a visita, o carinho deixado nos comentários e, também para parabenizá-la pelo teu espaço, pela boa escrita em prosa e verso. Gostei do poema sobre 'se não foi Deus', e me identifiquei com você quanto ao pensamento sobre fotografia. Meu forte são paisagens, animais, mas quando clico gente prefiro anônimos, pessoas simples que também em algum momento comunicaram algo muito profundo a mim.
Grande abraço.

marliborges disse...

Tânia, que poema maravilhoso!!!
Concordo demais, pois sei que "Há fatos e espantos para os quais já não há ouvintes. (...) E enquanto isso... cíclicas explosões de estrelas acontecem intimamente."
Gente que coisa fantástica! Parabéns. Mesmo!!
Um grande beijo.

Anônimo disse...

Pois é, amiga!

Essa sua/nossa paisagem primitiva me remete ao termo "primevo" que o poeta, não me lembro qual, diz ser a "palavra represada"... E é la onde está mapa do "eu" riscado em traços imprecisos e inexatos revelando o caminho das dores não nascidas; as rotas da alma em desalinho e as trilhas pontuadas pelas interrogações...

Bjo.
Sam

Anônimo disse...

Interessante, querida!

É saber como essa multidão autômata se vê (se é que se vê!?) diante de tão bela paisagem?
Penso, que essa paisagem, é origem e fim de tudo... pena que ao longo do caminho vão nos perdendo, ou melhor, nos esquecendo dessas "coisas simples" que só mesmo as crianças e os poetas não esquecem jamais...

bjo e saudades!

Sam

Tânia regina Contreiras disse...

Meninos, grata pela visita e pelas palavras. Sim, Fernando, paisagens também nos falam muito, gosto das paisagens e também, como você, das paisagens dos rostos anônimos.

Marli, grande beijo, Sam, estou aguradando o seu blog, porque esse poeta que vc é precisa dividir com a gente a alma mais cotidianamente.

Beijos

Flávio Henrique disse...

olá menina :P pois é por vezes somos surpreendidos com aquilo que um dia pensamos que era inutil, pois a paisagem, tudo aquilo que nos rodeia é simplesmente maravilhoso e nisso sim temos de depositar todo o nosso respeito...

:)
bjinho grande pequenina

está mesmo mui giro o posto como todos os outros claro...

o meu blogspot ainda está pobrezito mas está a crescer aos poucos :) eh eh eh

ventosnaprimavera disse...

Lindo e bastante profundo seu texto. Vim conhecer seu blog, gostei demais.Parabéns, tudo de bom pra você.Se puder visite um dos meus blogs.Arnoldo Pimentel

ventosnaprimavera.blogspot.com
palavrasnosventos.blogspot.com
haikainosventos.blogspot.com
sonhodepequenino.blogspot.com

Tânia regina Contreiras disse...

Olá, Flávio: sim, tua "casa" vai ficando ampla aos poucos e estou por aqui acompanhando esse crescimento.
Beijos

Tânia regina Contreiras disse...

Arnoldo, muito obrigada pela visita. Visitarei seus blogs, certamente.

Abraços

GRAÇA GRAÚNA disse...

Tania: o teu comentario ao meu poema "À deriva" se transforma num belo presente neste dia dedicado aos povos indígenas. Grata pela leitura. Paz em Ñanderu.

PS: gostei do seu blog. Bjos.

Gerana Damulakis disse...

Gostei muito, Tânia. A agilidade de seu estilo me arrastou. Gostei.

Cristiano Contreiras disse...

Muito denso e transformador...quase visual, na verdade as suas palavras mexeram as minhas monótonas sensações de hoje...

E este blog continua, firme e forte!

Muito bom!

Bípede Falante disse...

Tânia, vi o link do seu blog em um post do Mínimo Ajuste e vim conhecer o seu espaço. Sua escrita é densa e elaborada. Gostei muitíssimo.

Tânia regina Contreiras disse...

Obrigada pela visita e um grande abraço!

Marcantonio disse...

Agora entendo a definição triste/alegre. Seus escritos são muito densos, de uma beleza melancólica; aquela que, para mim, é mais persistente e reverbera na memória, mesmo porque não há há outra forma de tocar de modo inequívoco aquilo que há por trás do óbvio.
Aqui há, certamente, sinalizações para aquelas direções impresumíveis que você mencionou. Voltarei com prazer.

Um abraço.

Tânia regina Contreiras disse...

Marcoantônio, suas palavras refletem uma percepção apurada. Há, sim, uma melancolia pairando por sobre flores, versos, encontros, êxtases... Saudade do que já foi, saudade do que não foi, saudade do que virá? rsr Não sei...Grata pela sua presença.

Beijos