15 de abril de 2010

Olhares anônimos





Por que há dias em que nada acontece? – pergunta de tédio que me fiz ontem, cansada das chuvas intermitentes. Mas aí um olhar inquietante me foi lançado, na rua, por um anônimo. Quis dizer tudo aquele olhar – em um segundo, lançou luz sobre coisas ainda sem nome que jaziam esquecidas em algum lugar da minha alma.

Gosto do que é anônimo, das coisas sem marcas, sem pistas, sem nomes. Vibro com os encontros repentinos e únicos, onde muitas vezes não há tempo sequer de sabermos com quem falamos exatamente. E é bom constatar que existem olhares que se cruzam pela primeira vez e imediatamente se entregam um ao outro.

É bem interessante essa linguagem do olhar. Às vezes uma cumplicidade se estabelece entre dois seres que nunca se viram antes e, sim, ambos são capazes de tomar a defesa um do outro, de justificar atos, de traduzir gestos, de afiançar coisas, enfim, há uma intimidade insólita difundida pelo olhar e que muitas vezes me espanta.

Verdade é que as coisas anônimas me encantam. Pensei, ensaiei, prometi, mas nunca me dediquei à fotografia (esses sonhos de gaveta que só revemos em dias de arrumação). Mas, se fotografasse, certamente minhas lentes captariam os rostos anônimos. Há uma estranha poesia nas faces desconhecidas, nas rugas do negro que passa empunhando o facão da lida diária, nos óculos emendados com esparadrapos da velha senhora da esquina, das meninas de trança no fundo do caminhão. Em tempos de superexposições, o anonimato cria um poema singelo: a beleza dos desconhecidos.

Nessa divagação, lembro do belíssimo filme dirigido por Peter Webber, Moça com Brinco de Pérola, baseado no romance homônimo de Tracy Chevalier, que – tomando como base a vida do pintor holandês do século XVII, Johannes Vermeer – tentou desvendar o mistério da moça que serviu de modelo para o quadro classificado por alguns como a Mona Lisa holandesa. Quem era aquela moça de intrigante olhar retratada por Vermeer e por que aquele par de brincos cria um estranho contraste com o seu semblante? Beleza e poesia não faltam ao filme, e a estranha anônima que teria sido uma musa do introspectivo pintor suscita na imaginação muitas histórias.
Inevitável também lembrar do meu livro inesquecível, lido e relido com a avidez de quem procurava decifrar a essência do nada: A Fera na Selva, de Henry James. Um dia ainda dedico um post a esse livro. A trama desenrola-se em torno da relação de John Marcher e May Bartram, uma estranha, anônima, a quem ele havia revelado, ainda na juventude, o maior de seus segredos. Algo de grandioso e talvez terrível aconteceria a John em algum momento de sua vida. May, essa anônima, era a única pessoa a conhecer-lhe o segredo. Belíssimo livro e envolvente leitura.

Mas, enfim, ainda chove muito e essa chuva urbana não tem a mesma poesia das águas que vertem sobre a Natureza. Sob guarda-chuvas austeros, olhares anônimos pousam furtivamente sobre nossos semblantes amarelecidos de outono e provocam devaneios poéticos...

14 comentários:

Anônimo disse...

Aproveite o barulho das águas e das folhas que caem do outono para fazer um POEMA, uma canção que seja: "que faça acordar os homens e adormecer as crianças", ou melhor, um poema que DESPERTE de vez: a nossa Criança Interior...
Deixe em som te embalar!...

bjo.
Sam

Claudinha Antunes BA disse...

Taninha, querida!
Tenho este mesmo facínio pelos "anônimos"... Estou fazendo um curso de fotografia e meu olhar tb é fisgado pelas pessoas que passam na rua, mas deixam marcas aqui dentro...
Olha esta foto que tirei ano passado, assim que cheguei no Rio... pena que foi com uma maquininha "peba"...rs... Beijinhos e até amanhã
http://cacarecosdaclaudinha.blogspot.com/2009/11/week-in-year-6o-e-7o-dias.html

Tânia regina Contreiras disse...

Oi, Sam, Outono traz poesia, sim, ainda que nascida do tédio de águas que caem sem parar. Bom te ver por aqui novamente.

Claudinha, ah...que inveja (branca! da sua maquininha que pode captar semblantes anônimos. Até amanhã, nos veremos no curso.
Bjos

Úrsula Avner disse...

Oi Tânia, estou passando rapidamente já que meu tempo está bastante escasso. Quero lhe agradecer pelo carinho da visita e interesse em acompanhar meu trabalho na poesia. Depois volto com calma. Bj grande no coração.

Tânia regina Contreiras disse...

Beijo, Úrsula, apareça!

Ricardo Calmon disse...

Uma cronica concisa,completa e mui bem escrita,tu és escriba,e amo isso,no humano ser,pois escrever a alma lava ,a mente nutre e desenvolve intelecto e emocional nosso!
Vc chegou e mais um girassol ,brotou em campos meus!
Ternura e Paz!

Viva La Vida

Ricardo Calmon disse...

Huhuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu

Tania Regina em campos meus brotou,em girassol forma!

viva la vida

João Mario disse...

Tânia,

Obrigado pela visita, que bom que gostou do que escrevi. São coisas escritas há algum bom tempo que agora, gradativamente vou pondo pra fora. A beleza do anônimo é tão despretensiosa e gratuita quanto perigosa. Penso eu.
Um forte abraço

João Mario

evandro mezadri disse...

Olá Tânia. Obrigado pela visita e pelas palavras, gostei muito de seu blog também, principalmente de suas palavras bem articuladas e com muito conteúdo.
Um grande abraço e sucesso!

Tânia regina Contreiras disse...

Caros blogueiros visitantes, que bom tê-los aqui, em visita à minha Casa da Imaginação! Agora me aguentem, porque sou leitora voraz e estarei constantemente presente em vossas casas!

Beijos

Flávio Henrique disse...

um simples olhar por vezes pode significar aquilo que cada um de nós edializa logo podemos ver em qualquer lugar seja ela fisica ou imaginaria no nosso proprio olhar...

um bjinho grande...
gostei mui deste poste mesmo.
ass:flavio henrique

www.downinaholenow.blogspot.com

Tânia regina Contreiras disse...

Obrigada pela presença, Flávio.

Abração,

Fernando Antonio Pereira disse...

Bravo!!! Belo blog.

Abraços de Luz.

Tânia regina Contreiras disse...

Olá, Fernando, obrigada pela sua visita e abraços de luz para você também.