28 de dezembro de 2013

Minha poesia alada de 2013







"...que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós." - Manoel de Barros



(Aos meninos e meninas-passarinho - *Postado originalmente no facebook)


Já contei que meu pai tinha um cofre grande e antigo que eu precisei abrir no dia de seu falecimento. À parte documentos, lá dentro só tinha “coisas de menino”, seu pequeno tesouro. Uma coleção de moedas comemorativas, pedrinhas semipreciosas que trouxe do interior onde nasci, bicos de pena...enfim: na vida, um homem pragmático por necessidade; por dentro, um menino que guardava “inutilidades”, como diriam os mais plantados. E eu herdei isso dele. Mas prometi pra mim mesma que iria além do que ele foi. Que procuraria viver o que ele não viveu. Que pegaria o bastão e seguiria em frente. Este ano pude concretizar, de alguma forma, um sonho; escancarar a minha paixão pelas coisas inúteis, essas que fazem bem para os olhos e pouco ou nada servem para outra coisa, senão para a alegria genuína da alma.

Pois então: Manoel de Barros me estimulou a fazer isso. Descobri, numa lojinha de decoração, miniaturas de pássaros, com pena e tudo, que eu olhava deslumbrada todas as vezes que passava em frente à vitrine. Um dia entrei e comprei. E depois voltei e comprei mais. E fui dando passarinhos a pessoas queridas. Era também um jeito de dizer: dou-te o melhor de mim, e o melhor de mim é o que faz com que os olhos brilhem como só olhos de criança sabem fazer. Saí dando passarinhos e acabei o estoque da lojinha. Não me importei com os olhares dos vendedores ao me ver deslumbrada comprando miniaturas de passarinhos e lamentando quando, enfim, não havia mais nenhum. E tive que procurar similares, porque o ímpeto de dar passarinhos às pessoas queridas, especiais, não passava. E não passou. Talvez nem passe.
Mas o interessante nisso tudo foi perceber que não errava na escolha. Era gente acariciando passarinho, como se real fosse. Gente dizendo que procuraria um ninho para colocar o bichinho. O meu amigo que faleceu há menos de quinze dias também ganhou um no nosso último encontro, a despedida que ele não sabia, mas que previ. Um homem com pés no chão, marcado por uma história de vida sofrida. Ao receber o passarinho (que pra ele seria o símbolo do seu último voo), abriu um sorriso infantil, mesmo estando doente, acariciou a miniatura e, na hora de voltar pra casa, agoniou-se: “Onde botei meu pintassilgo, onde ele está?”. Estava ali, pertinho, e ele sorriu. 
De algum modo, esse anseio de dar passarinhos é um anseio poético. Queria um poema sem palavras, que a cada um dissesse aquilo que precisasse ouvir. Uma amiga entendeu que era símbolo do seu final de ciclo em Salvador, porque está de partida. “Obrigada, é o meu voo, adorei”. Um amigo cientista colocou a miniatura na planta que fica ao seu lado e vibrou ao receber o presente. Uma outra amiga viu o passarinho como símbolo da mudança para a sua primeira casa própria. Minha sobrinha se encheu de ternura pelo pequeno pássaro e o acariciou. E, assim, sem premeditar, vou descobrindo almas através de miniaturas de pássaros.

Evidentemente que tenho comigo já uns três. Li em algum lugar que uma casa sem algo de inútil é um ser calado. Já viram que nasci para morar em casas falantes, né? Ou, como disse Manoel de Barros, “nasci para administrar o à-toa, e em vão, o inútil”. Foi também ele quem disse que “catar coisas inúteis garante a soberania do Ser. Garante a soberania de Ser mais do que Ter”. E, na verdade, dei para compreender a linguagem dos pássaros. A decifrar suas mensagens. A acreditar que são eles mensageiros de dimensões mais sutis da Alma. No meu poema Anjo Ébrio, eu falo do meu anjo-de-guarda, que, embriagado por mim, passou a achar-se um passarinho. E não é que pode ser mesmo? Os pássaros podem ser anjos delirantes.
Se isto é um surto, ele ainda não passou. Ainda tenho passarinhos para dar. E histórias para ouvir a respeito dos voos de cada um. Mas o bom mesmo é constatar que ainda há gente que é tocada na alma ao receber uma miniatura de pássaro, que não serve pra nada, senão para sonhar. E eu, ao presentear, entrego um verso a pessoas especiais. 
Em 2014 haverá mais passarinhos. E muito a descobrir sobre a arte de sorrir contente diante de uma “inutilidade”.

12 comentários:

Andrea de Godoy Neto disse...

Tania, os pássaros, ainda que simbólicos, libertam nossa alma, nos trazem à tona a lembrança de qie somos também seres alados.
Que 2014 te permita muitos voos. Um imenso abraço e um obrigada por existir na minha vida. Ainda que eu esteja calada, nasa tei me passa desapercebido. Beijos

Joelma B. disse...

Mas é entre as coisas comuns, entre as inutilidades que os melhores voos são chocados...

Olha, Taninha, você passou um tempão longe do Facebook, e quando voltou, voltou com outra plumagem... mais exuberante, e rara!

Você é um passarinho que se deu de presente pra muita gente... um passarinho que veio pra ensinar um jeito diferente de voar!

A poesia se intensifica quando se estende sob teus olhos, sobre tuas mãos!

Muito obrigada pelos passeios que você tornou possível à Lira!

Beijos, querida poeta amiga dos voos raros!

Um muito incrível 2014 para você e os teus!

SILVANA MENDES disse...

Essa "nova" plumagem, tantas nuances de vivas cores, vindas de você, uma das grandes aves a nos atiçar a lira, os "seravis", os ave-poetas, carinhosamente e extensivamente denominando toda essa gente. Gente essa versátil na arte alquímica entre céu e chão. Você Tania, a musa, a grande pessoa que quero muito bem. Grande beijo!!!

José Carlos Sant Anna disse...

Ouço o timbre do seu passarinho com emoção e percebo que as palavras não me chegam, mas não sinto falta delas, pois o seu texto já preenche esse vazio engendrando no meu íntimo um alegria que não sou capaz de descrevê-la.
Ah! Deixa "passar um pássaro nos pastos feito de ar"
Saúde e paz em 2014 com mil pássaros adejando a tua vida.
Biejosssssss

cirandeira disse...

Tânia querida, tuas asas são de longo alcance, são fortes, generosas e acolhedoras. Voas alto sem perder de vista os que te são próximos, porque não queres voar sozinha, porque te preocupas com pássaros de todas as plumagens. Conhecer-te foi para mim um dos melhores presentes que recebí nesses últimos tempos!Desejo, de coração, que muitos outros pássaros possam voar a teu lado, formando uma grande revoada através dos céus da Poesia!

Um grande e afetuoso abraço
Beijos da 'Ci'

Breve Leonardo disse...


[por esse mar adentro se haverão de abraçar, em voo

asas, nossas
que de tão inúteis até saberão o momento exacto em que voar...

acredito!]

um imenso, imenso abraço, Tania!

bL

Batom e poesias disse...

A inutilidade depende da perspectiva. Passarinhos são essenciais...

Bjs
Rossana

Ana Cecilia Romeu disse...

Taninha que maravilha!
Dispensa dizer que me emocionei...
Menina, como não consigo ver inutilidade em nada, não seria nos teus passarinhos que eu veria :)

Impossível não me recordar do poema do argentino, a quem muito admiro, Oliverio Girondo (poeta porteño falecido em 67, dono de palavras em picardia e com uma ironia muito interessante),
em "se no me importa un pito" (isso não me importa), onde ele versa sobre, neste caso, a relação homem e mulher voadores/terrestres.
Aqui tem a questão do gênero e do amor a dois, mas deixo os versos numa tradução livre minha apenas para que você perceba os pássaros-homens-mulheres, porque sinto em vocês poetas, em ti em especial, Tânia, essas asas, esse voo poético de possibilidades.

"Yo, por lo menos, soy incapaz de comprender
la seducción de una mujer pedestre,
y por más empeño que ponga en concebirlo,
no me es posible ni tan siquiera imaginar
que pueda hacerse el amor más que volando."

"Eu, pelo menos, sou incapaz de compreender a sedução de uma mulher pedestre, por mais empenho que coloque em concebê-lo não me é possível nem sequer imaginar que se possa fazer amor mais que voando."

Tânia, assim sinto a poesia também, que "não consigo sequer imaginar que se possa fazer poesia mais que voando."

Sinto em você essa poeta alada, e mais, alguém que reúne as pessoas, que celebra esse círculo, agrega, motiva, e... em tudo isso que falei de ti inevitável não sentir semelhança entre você e o Wilson Caritta. E assim a vida segue, e há eternidades.

Grande beijo, Taninha!

Assis Freitas disse...

anseio de voo
vou de passarinho
flertar com o horizonte



grande beijo

Sônia Brandão disse...

Encantamento é a palavra exata pra dizer o que senti ao ler seu texto.

Também gosto dessas "inutilidades".
Tenho três desses passarinhos, um sozinho e outros dois juntinhos num ninho com ovinhos. E gosto de acariciá-los vez em quando.
Dia desses pude acariciar um de verdade que, infelizmente, estava fraquinho e acabou morrendo.
bjs

Primeira Pessoa disse...

taninha,
seu pai tinha um tesouro imenso dentro daquele cofre.
um dia destes eu entro dentro dele e finco uma bandeira.

quanto aos passarinhos, que voem..

voem...

beijão,
amor do

roberto.

jorge pimenta disse...

"dou-te o melhor de mim, e o melhor de mim é o que faz com que os olhos brilhem como só olhos de criança sabem fazer"

que outra coisa esperar de ti, taninha?

um verdadeiro tesouro tinha o teu pai no cofre; um verdadeiro tesouro ganho-o eu sempre que me aproximo de ti.

um beijinho desejando tantos mais pássaros, asas e céus neste azul 2014!