18 de julho de 2010

Carta a Luís Jaul Beoh - I

Amigo querido:

De cara, lembro das inúmeras cartas que já te mandei que tinham por introdução, invariavelmente, “...é domingo e chove...” Na nossa linguagem secreta, decifravas, então, de longe, o meu olhar oblíquo, a minha mudez, os meus seios pontiagudos quase perfurando a camiseta velha de malha, e eu envolta em névoa de tristeza que nenhum vento sopraria pra longe.

Hoje não, meu amigo...Hoje mudaria a estação, o dia seria um desses quaisquer, quem sabe a sexta-feira de Vênus, abençoada pela Deusa da Beleza. E não há chuva que caia agora, meu amigo, porque a aridez tomou conta de tudo – é para terras secas que os pássaros têm levado minhas sementes.

Beoh, o mundo está sofrendo mesmo, demasiadamente, ou estamos nós tão sensíveis, querido, e não suportamos mais a dor, os gritos agonizantes e silenciosos que lemos em tantos semblantes? Amigo, tenho visto tanta gente sofrer, tanta gente perdida em retorcidas ondas de dor, e fico sem saber como fazer para ajudar. Outro dia foi assim. Pensei em sugerir psicoterapia à pessoa, mas ela alegaria que não tinha dinheiro pra pagar, e há um preço, amigo, para a extirpação de cada dor, é neste mundo que vivemos, meu queido. Uma sessão psicoterapêutica custa caro. É aí que entram as religiões oferecendo consolos, milagres e reinos-dos-céus, e eles vão, porque sofrem.

Sabe menino, eu acredito que se houvesse mais amor, mais solidariedade entre os homens, não seriam necessárias tantas igrejas, tantas religiões. São esses os únicos lugares que os acolhem, Beoh. Engana-os, ludibriam, muitas vezes, mas é a única coisa de que dispõem. Mas acredito, Beoh, que a única saída para tanta dor é a espirituação. E quando normalmente falamos em espiritualidade, algumas pessoas acreditam que estamos pedindo alienação, sugerindo indiferença total às coisas do mundo, não é isso. A espiritualidade de que falo é aquela que nos diz de nossa ignorância como origem da dor. Só podemos amenizar nossas dores profundas quando tomamos consciência de que tosas elas são causadas pela nossa ignorância, as nossas ilusões, nosso medo de crescer.

Olha, querido, há uma beleza tão grande na dor pungente e profunda. É como a dor de um parto... Quando sofremos, estamos sendo convidados a enxergar o mundo com outros olhos... Estamos aprendendo a ver as coisas tais como são...estamos descobrindo erros e nos descobrindo outros – um passo adiante a caminho da sabedoria. A dor vem quebrando padrões e couraças...a dor vem nos mostrando a nós mesmos tais como somos, sempre fomos, mas temíamos ser. Sofrer não é tão mau assim Beoh, quando aproveitamos cada ensinamento, quando nossas percepções estão apuradas. Quando sabemos que seremos outro depois da dor, e seremos bem melhores do que somos.

Já estou te vendo falando que esqueço dos famintos, dessas dores mais concretas, que não podem ser lidas da mesma forma - eu sei, eu sei...

Falo da dor da alma, Beoh... falo da dor da alma...

Mas continuo amanhã, que tanto tenho pra te falar... que tanto tenho a perguntar sobre essa vida e o tempo que nos colocou geograficamente distantes...

Mas deixo pra amanhã, que é noite e logo amanhece...

18 comentários:

Jorge Pimenta disse...

texto lúcido e inquietante. entre as chuvas que alagam e a canícula que asfixia, é tão difícil saber onde pousar...
um beijinho, tânia!

Zélia Guardiano disse...

Lindo, Tania Regina!
Lindo!
"Quando sofremos estamos sendo convidados a enxergar o mundo com outros olhos..."
Só por esta frase, já valeria ter vindo aqui...

Tenha uma linda semana!
Beijo, querida

Ives disse...

Oi! Abraços

Assis Freitas disse...

esse teu texto é desafiador, impõe mergulhos, águas que banham longínquas datas,

esse teu texto se aninhou em todos os meus silêncios,

beijo

Andrea de Godoy Neto disse...

Tânia, eu terminei de ler e fiquei aqui olhando pra tela com a pele arrepiada e um silêncio arrebatador em volta. Tão arrebatador quanto esse teu texto.
Bravo, moça!

beijos

Denise disse...

Mergulhando..............para chegar a profundeza que leio aqui.

só a espiritualidade...só ela nos da folego para esse mergulho profundo e necessario.

afagos de aprendiz de mergulhadora

Chorik disse...

Puxa, você discorreu sobre uma dor íntima universal de uma forma muito linda, lúcida e (quase) sem dor.
Abs

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

"o mundo está sofrendo mesmo, demasiadamente, ou estamos nós tão sensíveis, querido, e não suportamos mais a dor"
me afundo nesse tristeza, na dor que profudamente machuca, na distancia que vamos impondo a nos mesmos como se todos os dias fossem domingos de chuva e frio

Abraão Vitoriano disse...

Tânia,
fui entrando sem querer e simplismente me apaixonei pelos seus escritos, pura sensibilidade... adorei "Tristeza lírica", muito bonito!

um super beijo,
do menino-homem

e voltarei...

fique com Deus!

Bípede Falante disse...

Ah, essa dor que nos carrega, que nos constrói e nos ilumina! Como pode ser terrível e tão cheia de ternura?

Anônimo disse...

surpresa essa, guria! Aguardo o restante da mensagem.
abs,
L. Beoh

Djabal disse...

a torneira seca
(mas pior: a falta
de sede)
a luz apagada
(mas pior: o gosto
do escuro)
a porta fechada
(mas pior: a chave
por dentro)

Desde José Paulo Paes, em tempos escuros a palavra (a)clara.
E a sua cumpre a tarefa com perfeição. Felicidades.

Santa Cruz disse...

Tania minha Amiga; lindo texto, a pessoa mesmo sofrendo tem a lucidez daquilo que diz e escreve, a nossa alma sofre mas nosso coração desabafa em palavras que compõem este lindo texto.
Um beijo
Santa Cruz

AC disse...

Olhamos em volta e o mundo sofre, sem dúvida! De muitas formas.
Apontou a espiritualidade como um meio de crescimento das pessoas, de ultrapassarem os seus medos, e não posso deixar de concordar consigo.
Belíssima carta, já agora. Pincelada de lucidez e sensibilidade.

Bjs

lucidreira disse...

Como discrever com lucidez e clareza tudo o que quer dizer. E o real, é que nescessitamos de quem dê um enpurrão para que possamos absorver com a dor e o sofrimento o óbivio.
Abraço

Tânia Marques disse...

Profundo, instigante, sensível, poético...Lindo!!! Parabéns! Beijos:)

Anônimo disse...

estou com saudades, manda uma carta escrita que tu sabes que gosto rsrs e aqui ta frio de doer, manda calor daí..
bjos
J. Beoh

Sylvia Araujo disse...

As vezes me pego sofrendo com o sofrimento dos outros, assim como ela. E me faço insone, e estendo meus braços, meus dedos, meus olhos, ofereço meu ombro aos que posso tocar. Mas é tão pouco, Tânia, é quase nada. E tudo é tão grande e tão maior, que sofro. E o que me sobra é o sorriso e o abraço, que pode não parecer muita coisa, mas contagia e chega longe...

Um beijo e um abraço apertaaaaaado pra você