23 de abril de 2010

Menestréis do amor




Nos tempos da adolescência, eu sonhava em encontrar o amor nos braços de algum trovador. Sempre achava a palavra “trovador” linda, quando a lia nos romances, e sonhava encontrar a qualquer tempo o meu trovador companheiro, numa afinada parceria de sonhos e delírios. Eu ganharia algumas quadrinhas e sorriria contente.

Mas depois que virei uma meio-feminista descobri uma nódoa nos sonhos com os menestréis, nossos artistas medievais.

Consta que os trovadores falavam, em muitos de seus versos, sobre as tais virtudes femininas, essa conversa mole que excluiu por tanto tempo a presença feminina da vida social, da vida política e da convivência pública. À mulher cabiam as funções de mãe, esposa submissa e guardiã do lar, e era essa a cantiga dos poetas machistas da Idade Média.

Mas como uma vez mulher, para sempre mulher, independentemente de época ou lugar, a poesia que fervilhava – abafada – nas veias femininas encontrou caminho de saída. Mulher dá sempre um secreto jeitinho para as coisas. E as mulheres poetas foram buscando formas de fugir da violência do silêncio, foram escrevendo com pseudônimos masculinos, foram usando os próprios trovadores como depositários de seus versos.

Há uma quadrinha do início do século XX – que retirei de um texto acadêmico sobre as cordelistas – que diz assim:

Menina que sabe muito
É menina atrapalhada
Para ser mãe de família
Saiba pouco ou saiba nada

Por aí se vê que o meu idealizado trovador dos tempos juvenis e tantos outros menestréis usavam suas composições, suas quadrinhas, como forma de opressão à mulher.

Hoje, vendo tantas de nós aqui escrevendo, escorrendo poesia e prosa, sinto o quanto caminhamos e constato que esta foi mais uma das inúmeras violências cometida contra as mulheres: vetar-lhes o direito à poesia!

Bem, mas sonho não precisa necessariamente manter uma relação íntima com a realidade. O trovador de meus sonhos de adolescente ainda tem o mesmo frescor de antes nas minhas lembranças - algo como um poeta antiqüíssimo que me entrega uma rosa e faz uma quadrinha falando de amor infinito. (E tiveram, sim, lá seu lado romântico, com trovas que muitas vezes eram a prova de amor ao luar, como diz a canção postada abaixo). E, em contrapartida, as trovadoras podem hoje retribuir também tocando e cantando. As seresteiras, as menestréis do amor, as poetisas, as escritoras, as cantoras... A história hoje é outra.

O Trovador

(Jair Amorim e Evaldo Gouveia)

Sonhei que eu era um dia um trovador
Dos velhos tempos que não voltam mais
Cantava assim a toda hora
As mais lindas modinhas
Do meu Rio de outrora
Sinhá Mocinha de olhar fugaz
Se encantava com meus versos de rapaz.
Qual seresteiro ou menestrel do amor
A suspirar sob os balcões em flor
Na noite antiga do meu Rio
Pelas ruas do Rio
Eu passava a cantar
Novas trovas em provas de amor ao luar
E via então com um lampião de gás
Na janela a flor mais bela em tristes ais!!!
Sonhei que eu era um dia um trovador
Dos velhos tempos que não voltam mais
Cantava assim a toda hora
As mais lindas modinhas
Do meu Rio de outrora
Sinhá Mocinha de olhar fugaz
Se encantava com meus versos de rapaz.
Qual seresteiro ou menestrel do amor
A suspirar sob os balcões em flor
Na noite antiga do meu Rio
Pelas ruas do Rio
Eu passava a cantar
Novas trovas em provas de amor ao luar
E via então com um lampião de gás
Na janela a flor mais bela em tristes ais!!!

20 comentários:

Primeira Pessoa disse...

tânia,
algo que nada tem a ver com o que acabo de ler. mas que tem tudo a ver. rs
um gênio (ele frequenta hoje a igreja universal de vitória da conquista...) muito louco e controverso e iluminado e absolutamente original criou uma música e um universo medieval em pleno planalto baiano.

refiro-me a elomar figueira de melo. cê conhece a música dele?

gênio, tânia.

se cê não tiver nada dele, posso lhe mandar uns mp3.

abração do
roberto.

Marcantonio disse...

Algo se ganha
de uma forma concreta,
a poesia sem polaridade
(liberta!),
se uma mulher diz:
-Não sou poetisa,
sou poeta!


Pelo menos tentei!

Um abraço.

Tânia regina Contreiras disse...

Oi, Roberto, não conheço Emomar Figueira não, mas quero conhecer. Manda, sim, os mp3, que vou adorar. Manda por e-mail.

Ah, Marco, tentou não: conseguiu!!!! rs

Abração procê!

Veronica Rodrigues disse...

Encantador e diferente.

ótimo final de semana.
um abraço.

Tânia regina Contreiras disse...

Obrigada, Verônica.
Abraços

Juan Moravagine Carneiro disse...

Bela construção!

Tânia regina Contreiras disse...

JUan, obrigadíssimo pela presença: beijos

Gerana Damulakis disse...

Muito interessante o texto, o sonho com o trovador, a época meio feminista; enfim, passagens onde todas nós nos reconhemos um pouco.

Tânia regina Contreiras disse...

Gerana, obrigada pela presença.
Beijos

Luciano Azevedo disse...

"Uma flor rompe o asfalto", disse o poeta. Acho que foi isso que aconteceu com a escrita (poesia) de autoria feminina que conseguiu quebrar o "asfalto" - quase instransponível - do domínio masculino. Avante mulheres! Abraço e ótima semana.

Tânia regina Contreiras disse...

Luciano, querido, obrigada, boa semana pra você também.

jorge manuel brasil mesquita disse...

OUVE ESTA TROVA
DE MENTE EMPEDERNIDA
PELA VELHA NOVA
DE UMA ASA FERIDA
QUANDO PROCURAVA
NA MÚSICA DO POENTE
A FONTE QUE LAVAVA
CORES DE QUEM NADA SENTE.
É UMA TROVA TRICOTADA
COM SONS DE ORVALHO
E OLHOS DE MADRUGADA
VIVIFICANDO O ESPANTALHO
DE QUALQUER NOITE SANGRADA
ACORDANDO OS DONS
DE TODOS OS TONS
QUE NASCEM COM O PRAZER
DE TUDO SER
NA ARTE QUE RENOVA
A BELEZA DE UMA TROVA.

nINGUÉM (jORGE mANUEL bRASIL mESQUITA)
26/04/2010 - 13h34 - bIBLIOTECA nACIONAL

ETPLURIBUSEPITAPHIUS.BLOGSPOT.COM

Anônimo disse...

Amiga Tãnia,

É para esse tempo que caminhamos: o tempo das menestréis do amor, das poetisas, das escritoras e das cantoras do Amor...
Não sou menestrel, nem trovador, ou, talvez, eu seja ambos... sei lá.
Mas também gosto das "meninas atrapalhadas", pois sem elas e seus sonhos o HISTÓRIA seria bem outra...
Que venha esse Tempo! E que venham essas Mulheres com suas serestas, seus cantos e contos de Amor!...

bjo.

Sam

Tânia regina Contreiras disse...

Jorge Manuel, que beleza!!!!A beleza de uma verdadeira trova, gratíssima pela sua presença marcante aqui na Casa!

Abraços

Tânia regina Contreiras disse...

amigo querido Sam, como duvidar que você é um trovador? Eu aguardo esperançosa sua casinha da imaginação também, para tricotarmos.
Beijão, querido amigo.

ju rigoni disse...

Tem razão, Tania. Por sorte, não vivemos aquele outro tempo. Lógico, os problemas não terminaram, apenas se modificaram. Mas, hoje, estamos aí para fazer frente ao que vier. Não estamos mais entre as Amélias, - a de Mário Lago, ou a de Olavo Bilac, sua noiva que, cartas vindas à público, revelaram a face preconceituosa do poeta. Imagine,... Olavo Bilac. Ora, direis!... rsrs

Tania, adorei o texto.

Bjs e inté!

Tânia regina Contreiras disse...

Oi, Ju, que bom a tua participação aqui. Sim, foram-se as Amélias e chegamos todas nós, mulheres de verdade, sim.

Beijos

Rita Contreiras disse...

os trovadores estavam inseridos num contexto social, do qual não conseguiam fugir, porém, ainda assim, existiram produções sensíveis, que demonstravam um cuidado maior com a natreza feminina.Mesmo traduzindo uma opressão as palavras traziam mais delicadeza. A liberdade conquistada ainda carece muito de respeito.Parece que sair de casa custou à mulher perder um cuidado com a sua natureza, tanto dela mesma quanto do homem.Mas vamos em frente!

Tânia regina Contreiras disse...

POis é, mas estamos nos novos tempos e trovadores modernos apontam à mulher o caminho amplo, do mundo, sem machismos, o que é perfeito!

Abraços

ju rigoni disse...

Oi, Tania!

Quando comentei seu post não tive tempo para procurar o linque.
Aqui está: http://literaturaemvida2.blogspot.com/2009/09/literatura-de-ontem-2.html
Se puder, e assim o desejar, dê uma olhadinha.

Bjs, linda, e inté!