10 de outubro de 2012

(Dos sonhos IX): O galope do verbo em casa onírica







Em minha casa há um poço profundo onde flutuam as antigas máscaras dos deuses.  Na fachada, dois abismos cor-de-mel arrastam os que ousam perscrutar seus mistérios. Ela é de pedra e de nuvens.   Alicerça-se nas terras molhadas do pântano e, assim, desliza, dissimulada, por caminhos diversos. Sua porta pequena entreabre-se para que galope o verbo ferroz e ressoe o grito. Às vezes, um insinuado sorriso convida a que alguém entre, deixando, porém, os sapatos lá fora.
Em minha casa mora um homem de discursos breves, feito de retalhos de muitas eras. Lógico, raciocina com a exatidão profunda dos homens aquáticos e age com o ímpeto dos homens em chama.  Ele quase nunca chora. Quando o faz, torna a terra mais alagadiça e faz brotar em meus olhos um lírio d’água.

As casas dos meus sonhos têm, contudo, mudado. Minhas moradas oníricas tornam-se pouco a pouco mais transparentes e vertem curtos labirintos em direção a outros mundos. As persianas que velam minha intimidade já não descem aflitas. Fecham-se lentamente, para se abrirem nas madrugadas silenciosas. 

O simbolismo da casa é um dos mais ricos em significado. Como símbolo de nosso espaço psíquico pessoal, nossa casa é o reflexo de nossos compartimentos internos, e ostenta nossa fachada, nossas linhas sinuosas, nossa assimetria, nossos precipícios, nossos cantos ocultos.  Gaston Bachelard afirma ser “impossível escrever a história do inconsciente humano sem escrever uma história da casa”.

Uma casa onírica é uma imagem que, nos sonhos, pode tornar-se uma força de proteção. É comum que ainda gostemos de viver na casa que já não existe, porque nela revivemos tantas vezes o reconforto, a proteção o acolhimento. A casa que já não existe continua nos protegendo. Por mais que caminhemos por novas paisagens, encontraremos sempre a casa desaparecida, que se transmuta em alma e nos acompanha em nossa pequena eternidade.  Jung escolheu a casa para configurar o processo de seu desenvolvimento psíquico – processo de individuação.

No sonho, a casa pode aparecer como choupana, gruta, labirinto, cabana e tantos outros motivos que têm a mesma raiz. Mircea Elíade lembra que “exatamente como a cidade ou o santuário, a casa é santificada, total ou parcialmente, por um simbolismo cosmológico ou ritual”. E é ele mesmo que também diz que a casa “é um universo que o homem constrói para si mesmo, imitando a criação paradigmática dos deuses, a cosmogonia”.

Em todas as casas há de haver um sótão e um porão. Do alto, vislumbramos a claridade, os raios luminosos da consciência, o mundo inserido na ordem da Razão. Embaixo, perambulam sombras, seres com rostos transfigurados que espelham nossas faces ocultas. Imprescindível a existência de uma escada que una esses dois mundos. Há os que descem e voltam a subir. Há os que temem descer. Há os que jazem para sempre nas águas profundas, no mundo caótico de símbolos indecifráveis. Todos nós possuímos um ideal de casa. A Casa Onírica de Roza de Oliveira abre-se inteiramente para o mundo.

“Bem no pico dos meus sonhos
construí minha morada,
sem paredes, sem telhados,
sem limites nos seus lados.

Bem que o telhado varia.
Varia conforme o dia:
há telhado de gaivotas,
de estrelas, de andorinhas!

Minha cama é uma nuvem,
minha mesa - a lua cheia.
O vento - é o meu cavalo!
Sou turista do infinito!”

Nossa casa onírica é feita, de um modo geral, de uma combinação de imagens reais e de símbolos, misto de realidade e ficção. Nunca é por acaso que nos encontramos numa determinada casa nos sonhos. Nossa realidade psíquica dominante é expressa através desse ambiente, que se transforma à medida que nos transformamos. E é verdade, também, que há sempre um compartimento da casa onírica onde receamos entrar. Lá, por certo, encontra-se a chave principal da nossa moradia. Mais cedo ou mais tarde, é preciso que entremos e nos confrontemos com a parte de nossa história que jaz esquecida.

Em minha casa há um banheiro feito de transparências. Largo, luminoso, com água que jorra sem contenção. Desfruto dele com a liberdade e a alegria de quem se sabe animal, de quem procurou, por tanto tempo, as suas raízes, o tempo primitivo onde começou a existir. E lembro que os alquimistas sempre alegaram ser possível transformar excrementos em ouro.

Imaginamos qualquer casa que moramos sempre a mais do que ela é, pois essa imagem arquetípica serve de ponte entre a imaginação e as lembranças. Conforme lembrou Bachelard, “a casa vivida não é uma caixa inerte. O espaço habitado transcende o espaço geométrico”. Por isso, uma casa nunca será tão-somente uma casa. Por isso, a caverna é uma paisagem que me é tão íntima, morada úmida onde nossas pupilas já arderam, um dia, na escuridão.

Em minha casa mora uma menina. Ela tem medo e a protejo. Vez ou outra ela saltita sobre meus ossos, brinca entre as paredes do meu útero, como se quisesse nascer. Às vezes tenta saltar pra fora, mas recua, porque cá fora já não há quintais.   

12 comentários:

José Carlos Sant Anna disse...

Tania,

Não consegui montar no cavalo a galope, a falta de exercício contribuiu para esta dificuldade. Mas a descrição da casa onírica é fulguração que compensou a falta da sela. Maravilhoso o seu texto.
beijoss

José Carlos Sant Anna disse...

Tania,

Não consegui montar no cavalo a galope, a falta de exercício contribuiu para esta dificuldade. Mas a descrição da casa onírica é fulguração que compensou a falta da sela. Maravilhoso o seu texto.
beijoss

Domingos Barroso disse...

O teu corpo não é a morada
da tua alma, a tua alma
é outra - a vangloriar
aquele que te invade

decerto também
com outro corpo
...


Beijo carinhoso,
Tânia, boa noite.

Lara Amaral disse...

Tenho fascínio pela casa, está vez ou outra aparecendo em meus escritos. Quem convive muito com a solidão e a escrita tem a casa como templo. E no sonho, é sempre algo que se desconstrói com ventos, tempestades, pelo menos assim para mim.

Beijo.

Rita Contreiras disse...

É maravilhoso o caminho que o sonho tece para nos levar a uma verdade tão profunda! Tão real é o que ele nos oferece que,acordados, sonhamos, porque nos vestimos com tantas roupas e fingimos tantas falsas morads e proteções que nos deixam tão vulneráveis...que o sonho possa devolver você a você mesma e que amenina possa ter coragem de se aventurar, ainda que segurando as mãos do medo e o fazendo caminhar!

Luciana Marinho disse...

amei ler as casas que têm em tua escrita uma morada.

muito lindo esse "brotar em meus olhos um lírio d’água".


abraço!

LauraAlberto disse...

ah como gostei de visitar esta tua casa

também eu me perco na minha, tantas e tantas vezes

beijinho

Assis Freitas disse...

Tentando alcançar a equação deste silêncio

p/ Tânia Regina Contreiras

homens em chama e lírios d'água:
eu me queimo e me inundo


beijo

cirandeira disse...

Nossa casa onírica é mesmo cheia de compartimentos, alguns de acesso fácil, outros inacessívies e povoados por fantasmas que nos tomam suas chaves. Às vezes essa nossa morada possui portas que estão entreabertas, mas por medo, só conseguimos chegar até o seu umbral sem ousar ultrapassá-las!
O "galope do teu verbo" tem se aproximado cada vez mais da porta de entrada dessa tua "casa onírica" cheia de surpresas!
Gostei muito do teu texto: MUITO BOM!!!

beijoss

dade amorim disse...

Um texto sensacional, Tânia! Me fez lembrar a casa da infância, as casas em que vivi e que - todas elas - têm esse lado onírico, surpreendente. Surpresas sempre nos encontram, nas casas onde vamos morar, e se misturam com os sonhos, com animais reais ou não, com faces que às vezes não reconhecemos.
Um texto e tanto, muito muito bom.

Ando meio distante dos amigos e de seus blogs, porque têm acontecido coisas muito diferentes em nossa casa (olha a casa aí de novo), mais gente, movimento e trabalho extra. Um dia te conto. Mas sinto falta e saudade desses blogs maravilhosos que conheço e não gosto de perder.

Beijo grande, e pode crer, assim que as coisas entrarem nos eixos, volto a ler blogs como o teu e outros que adoro.

Pablo Rocha disse...

Grande, grande Tania!! Uma palavra: Aplausos!!

Bípede Falante disse...

E entre o sótão e o porão a gente sobe e desce as escadas tantas e tantas vezes!

Beijosss