7 de agosto de 2010

Epifanias

Intrigaram-me, ainda na infância, as coisas que não tinham começo e nem fim. Eu ficava perturbada quando me perguntavam quem teria nascido primeiro, se o ovo ou a galinha. O horizonte era o lugar onde meus olhos encontravam repouso, mas era tortura saber que a linha que limitava o espaço não existia. E o infinito encontrava-se novamente por detrás da divisória imaginária. E o que parecia ser fim era também começo de alguma coisa em algum outro lugar.

Também foi na infância que descobri que a noite não era um manto único que se estendia, a um só tempo, por todo o globo terrestre. E aí dei pra inventar que, enquanto eu dormia um sono profundo, numa fria noite de uma pequena cidade brasileira, um outro eu despertava em algum país do mundo onde o sol estendia seus raios cintilantes. Sem o saber, ainda menina eu pressupunha sempre um lado oposto para todas as coisas.

Entretanto, nem para tudo eu encontrava uma contraparte. Alguns eventos que ocorriam em minha vida eram verdadeiros enigmas que fugiam à compreensão do meu incipiente raciocínio filosófico. O senso comum denominava esses eventos de “coincidência”, mas eu esboçava reconhecer ali algo que exalava magia. Era mais, muito mais do que coincidência o que eu via ali.

Creio que cresci procurando um nome para esta espécie de magia que acontecia recorrentemente em minha vida. E um dia li que o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung dera o nome de sincronicidade às coincidências significativas que ocorrem em nossas vidas. Mas, não. Ainda não era o polêmico ex-discípulo de Freud que abrandaria minhas inquietações.

Um dia, durante uma pesquisa, esbarrei-me com a palavra epifania e uma luz de confirmação acendeu-se dentro de mim: era esta a palavra que eu procurava! Entendi que os mais sutis dos sutis dos eventos mágicos eram pequenos momentos de revelação, onde ao homem era permitido tocar os céus – átimo divino.

Penso que as pequenas epifanias acontecem a todo homem que abrigue dentro de si a centelha divina. Não importa onde estejamos, gotejos de magia cairão sobre nós em alguns momentos de nossas vidas. E as pequenas epifanias não precisam ser, exatamente, extraordinárias, no sentido em que entendemos comumente do notável, do excepcional. O homem do campo, por exemplo, viverá pequenas epifanias de modo bem diferente do homem urbano. Tendo a Natureza como cenário, o homem que cultiva a terra verá a manifestação divina na semente e na flor; na chuva e no vento; na planta que verga e seca quando sua alma se enche de tristeza. Ao homem urbano, a Divindade fala de uma forma mais corriqueira. Pequenas epifanias também explodem entre as atividades mais triviais do homem urbano. E o acelerado homem da cidade grande também se queda surpreso diante dos pequenos esplendores que eclodem da vida vulgar.

Não, não penso que seja preciso estar filiado a qualquer instituição religiosa e nem mesmo que se acredite num Deus todo-poderoso para que se reconheça uma dimensão mágica da vida em todos nós. Acredito que não há sequer uma pessoa no mundo que não tenha vivido em algum momento uma pequena magia. A vida é, de fato, mágica!

Pois que resolvi chamar de “pequenas epifanias” a todos os acontecimentos que traduzam simultaneidade e que, de algum modo, retirem-nos momentaneamente dessa dimensão mais vulgar da vida. E inclino-me a pensar que, sempre que eles acontecem, passamos a estar mais conectados com um princípio superior que – independentemente de quais sejam as nossas crenças, ou mesmos que não as tenhamos – arrebata a nossa alma.

Certo dia, uma borboleta pousou no meu ombro, enquanto eu me debatia com pensamentos confusos, buscando respostas para questionamentos profundos que a minha alma fazia. Andei algumas quadras com a borboleta imóvel no mesmo lugar. Continuei a andar e fui me dando conta do quão singular era ser “acompanhada” por uma borboleta por tanto tempo, nas ruas de uma cidade grande onde raramente se vê um inseto daquela espécie. Fui entendendo não-sei-como que a presença do bicho tinha a ver com a essência dos meus pensamentos. Já voltava para a casa, e o animalzinho continuava lá. Mas os meus pensamentos mudaram. Concentrava toda a minha atenção agora na presença da borboleta e me perguntava qual a mensagem que ela me trazia naquele momento. Foi com a mente já harmonizada que vi o inseto voar pela janela do meu quarto, enquanto eu estranhava a repentina serenidade de que foi tomada a minha alma.

Não faz muitos dias, fui comentar, empolgada, no blogue de um de nossos poetas da blogosfera, sobre a beleza de seu poema, e a palavra de verificação adiantou-se a mim: B r AV o! São às vezes tão simples, singelas mesmo essas pequenas epifanias. Outras surgem numa proporção surpreendente, provocando êxtase. Mas...qual a finalidade das pequenas epifanias? Para que servem? Por que vêm? Bem, acho que cada um de nós encontrará sua resposta única, singular...

22 comentários:

Assis Freitas disse...

acredito também nessas pequenas dádivas que nos interpelam e às vezes a gente nem se dá conta, o importante é estarmos atentos para os pequenos acontecimentos que se revestem de epifanias, tem um mantra cantado por Walter Franco que eu gosto de lembrar:
"tudo é uma questão de manter
a mente quieta, a espinha ereta
e o coração tranquilo",

beijo

Zélia Guardiano disse...

Tania Regia, minha querida
Ainda hoje, agora há pouco, em casa de uma amiga, falávamos sobre esse tema que você, de forma magnífica, desenvolve aqui. Veja como trabalha o anjo da sincronicidade...
Encantei-me com o seu texto! Lindo, lindo e muito adequado para profunda reflexão...
Parabéns, querida!
Beijo

Cleópatra M.P. disse...

Querida Tânia, essas pequenas epifanias da Vida são, na minha opinião, bênçãos encobertas! Só temos que as saber ver e entender... sempre fui muito atenta a este género de episódios que ocorrem tantas vezes na minha vida e ainda não me arrependi!

Um beijo grande para ti.
Cleópatra

Juci Barros disse...

Nooossa! Faz tempo que não leio algo tão agradável, talvez porque concorde com você a respeito do encanto da vida, de saber reconhecer a magia no mínimo, de pensar enquanto ando. Mesmo que não encontremos respostas para os acontecimentos, refeletir sobre os mesmos já faz significativa diferença.
Beijos.

Tania regina Contreiras disse...

É isso, Assis, Wlater franco está certo: as revelações acontecem aos montes, mas só se nos aquietarmos poderemos percebê-las.
Beijos,

Machado de Carlos disse...

Não conheço bem a palavra “epifania”, mas sei que todos os seres humanos possuem uma aura. Conforme a evolução de cada pessoa essa aura demonstra uma cor diferenciada. Quase sempre encontramos pessoas com um carisma inexplicável. Imagino que este carisma quer nos dizer que a aura dele está mais evoluída do que a nossa. No sertão, existem pessoas especiais, independentemente de cultura, que encontra água com um simples galho de árvore em forma de forquilha. Existem também pessoas humildes que conseguem colorir vidros, contrariando os estudos da engenharia, rica em matemática. Seria este o caso explicável da palavra “epifania?”

Maria Emilia Xavier disse...

Texto muito bonito. Acredito que precisamos estar em profunda harmonia - mesmo que seja esta uma revolução interior - para percebermos estes pequenos encontros - para mim com Deus.

Renata Bezerra disse...

Lindo texto, Tânia. Dou muito valor a momentos como esse, em que meus olhos encontraram tuas palavras. A vida é feita disso, momentos tão mágicos e tão simples... O entender, o revelar, a epifania.

Beijo, querida.

Bípede Falante disse...

Tânia, não sei direito o que penso. Eu reconheço e concordo contigo inteiramente sobre esses momentos de revelação, execução e emoção tão grandes que até parecem divinos. O que eu não sei explicar (porque talvez não entenda) é porque os associamos a algo mágico, porque não somos magia, somos muito reais e essa realidade não tem de ser desprovida de beleza, inspiração, revelação, recriação. Sei lá. Preciso pensar :)
bj.

Denise disse...

Saber reconhecer essas "magias" da vida no caminho do andante .

você sempre com essa capacidade para colocar em palavras,tantos coisas e sentires meus.

afagos

Juan Moravagine Carneiro disse...

Me desculpe pela minha ausência nos últimos dias, é que andei sem tempo para nada...

é sempre um prazer receber suas visitas no Rembrandt

abraço

Tania regina Contreiras disse...

Machado, Epifania é simplesmente o mistério revelado num átimo de segundo. Penso que todos, sem exceção, já viveram momentos mágicos.
Beijos,

Tania regina Contreiras disse...

Juci, que bom que gostou. Obrigada pela visita, viu?
Beijos

Tania regina Contreiras disse...

Zélia, obrigada, querida, pelo carinho. Estávamos sintonizadas no mesmo pensamento! :-)
Beijos

Tania regina Contreiras disse...

Cleópatra, acho que sim, podemos chamar de bênçãos de algum modo. E é interessante como são de repente desveladas, não?
Beijo e obrigada pela tua visita

Tania regina Contreiras disse...

Maria Emília, acredito que em harmonia estaremos mais aptos a enxergar a magia!
Beijos pra ti

Tania regina Contreiras disse...

Renatinha, e é bonita, é bonita e é bonita a vida, não? Apesar dos pesares.
Beijão

Tania regina Contreiras disse...

Bípede...ah, voute deixar pensando! :-)) Refletindo sobre isso descobri muitas coisas...
Beijão,

Tania regina Contreiras disse...

Oi, Denise, que bom que consigo traduzir emoções suas! rs Beijo grande e obrigada pela visita.

Tania regina Contreiras disse...

Juan Rafael...:-), eu sei o que é isso, tempo é um artigo raro. Obrigada por vir...
Abraços

Gerana Damulakis disse...

Q texto legal, T. A epifania serve para surpreender, seja pelo inesperado mesmo, seja pela intensidade ímpar. Na literatura, a epifania é o grande momento, não é?

Tania regina Contreiras disse...

Na literatura, é o momento da revelação poética, não, Gerana?
Beijo grande