1 de abril de 2010

Meu novo vestido é roxo


Meu Roxo-violeta marca um novo momento em minha vida. Inquieta, já deixei para trás outros blogs, e eis que estreio este justamente quando, mais uma vez, me reinauguro, confiante em que a maturidade haverá de conseguir transformar a inconstância em versatilidade, porque no fundo, no fundo não mudamos naquilo que nos é essencial, apenas – e sabiamente – procuramos novas formas de continuar sendo quem somos.

O nome do blog veio como símbolo de um momento em que a proposta é procurar viver da forma mais autêntica que me for possível (e espero que eu consiga o máximo disso!). Serviram-me de inspiração um poema de Jenny Joseph que li há algum tempo, do livro A Deusa Interior, de Jennifer Barker Woolger e Roger J. Woolger (Editora Cultrix), chamado Advertência, e também a história real de uma personagem lendária de Salvador, A Mulher de Roxo, que tanto mexeu com o imaginário popular e que por alguma razão ocupava boa parte dos meus pensamentos na época em que eu a via. Abaixo, postarei o poema e um artigo sobre essa figura mitológica, ambos simbolizando esse momento que me convida a experimentar todas as possibilidades de traduzir-me a mim mesma e ao Outro. Acredito que a vida real começa quando nos propomos, sem receios, à singularidade; quando entendemos que habitam em nós uma multidão se seres que precisam de voz. E é, sim, possível falar todas as línguas – algumas esquecidas – que aprendemos ao longo de nossa Jornada.

Eis o poema, eis a enigmática mulher que me traz uma mensagem ainda não decifrada completamente... Quem sabe me dirá, a qualquer momento, algo que ainda não pude ouvir?


Advertência

Quando eu for velha, vou me vestir de roxo

Com um chapéu vermelho que não combina e não me deixa bem

Quero gastar minha aposentadoria em conhaque, luvas de seda

E sandálias de cetim, e dizer que não temos o dinheiro da manteiga

Sentar-me no chão quando estiver cansada

Devorar amostras nas lojas e apertar botões de alarme

E raspar minha bengala pelos gradis das ruas

Para compensar a sobriedade da minha juventude

Sairei de chinelos na chuva

Colherei flores em jardins alheios

E aprenderei a escarrar.

Poder usar blusas medonhas e deixar-me engordar

E comer dois quilos de lingüiça de uma só vez

Ou apenas pão e picles por uma semana

E estocar canetas e lápis e bolachas de chope e coisas em caixas

Mas por ora devemos ter roupas que nos mantenham secas

Pagar nosso aluguel e não xingar pelas ruas

Dando bom exemplo para as crianças

Temos de convidar amigos para o jantar e ler os jornais

Mas e se eu pudesse ir praticando um pouco agorinha mesmo?

Para quem me conhece, não fique chocado ou surpreso

Quando eu de repente for velha e passar a usar roxo.


Jenny Joseph


Mulher de Roxo foi a personagem lendária de Salvador


Sempre de roxo, com roupas que lembravam o hábito usado pelas freiras, ela costumava perambular e dormir pela Rua Chile e imediações. Teria nascido em 1917 e morrido em 1997, aos 80 anos. Dizem que foi moça instruída, de boa família e que teria enlouquecido por causa de uma grande desilusão amorosa. O final da vida da Mulher de Roxo foi triste, assim como a sua imagem em vida, marcada pelo abandono de todas as coisas.A história de Florinda Santos, a conhecida Mulher de Roxo, se transformou numa lenda urbana, uma figura mitológica conhecida por todos da localidade. Não importava se o dia era de chuva ou de sol, ela nunca faltava. Era só as portas do comércio da Rua Chile abrirem e dona Florinda já se encaminhava para a entrada da Slopper. Vestido com roupa de veludo violáceo, iniciava o ritual diário. Andava de um lado para o outro, falava sozinha e sempre pedia dinheiro. Tudo com muita educação. Afinal, dizia-se que a Mulher de Roxo, personagem dos tempos diários do centro da cidade, vinha de boa família.Andava descalça com longas mantas, um torço e um enorme crucifixo. Tudo isso dava a ela um ar meio santo, meio louco, meio andarilho e meio mendigo. Algumas vezes a dama desfilou com uma roupa de noiva, com direito a buquê, véu e grinalda. Com todos esses componentes cênicos, contraditórios e demasiadamente humanos, a mulher de roxo despertou sentimentos em toda a cidade, medo e respeito, pena e carinho.Qual sua origem? Poucos sabem direito. Uns defendem a tese de que havia perdido a fortuna e enlouquecido; outros apregoavam que teria visto a mãe matar o pai e depois suicidar-se; terceiros garantiam, ainda, que ela perdera a filha de consideração e a casa, na Ladeira da Montanha, numa batalha contra o jogo. Outros ainda contam que ela enlouqueceu porque teria sido abandonada no altar. Em outros depoimentos,. Aparece como uma bela mulher, a mais cortejada dentre as freqüentadoras do chá no final da tarde na Confeitaria Chile e como ex-professora em Paripe. Florinda, que nunca contou a ninguém, sua verdadeira história, perambulava com suas vestes roxas, inspiradas nas roupas das suas santas de devoção.Vestida de freira, circulando livremente pela rua mais badalada de Salvador. A estranha indumentária, que incluía ainda um grande crucifixo, a transformou na Mulher de Roxo, a principal lenda urbana da capital. Foi assim que Florinda, a mendiga que jurava ser rica, passou a ser a personagem lendária, surgida, do nada, em frente à loja Sloper, nos anos 60 do século XX, em Salvador. Quando se enfeitava, com maquiagem forte no rosto e nos lábios, ela usava o espelho retrovisor dos automóveis estacionados. Como sanitário, servia-lhe qualquer território mais calmo. A Rua Chile era sua verdadeira casa, seu mundo, seu reinado. A intimidade com a rua era tão grande que ela sempre andava descalça. Na fachada da loja Sloper, localizava-se o seu trono de sarjeta. Na Rua Chile, chegava sempre muito cedo, circulava pelo centro e só recolhia o seu saco preto ao meio-dia, quando almoçava. Ao final do dia, voltava, andando, ao albergue noturno da prefeitura, situado na Baixa dos Sapateiros.Muitas reportagens foram publicadas na época sobre a mulher de roxo ou dama de roxo. O jornalista Marecos Navarro gravou uma entrevista exclusiva com ela e é um dos raros documentos em que é possível ouvir a voz de Florinda. Em 1985 o cineasta baiano Robinson Roberto documentou um vídeo em Super 8 em que a mulher de roxo diz morar no albergue há três anos, e revela pertencer à família Rainha Princesa. Foi também personagem retratado na Galeota Gratidão do Povo, painel de 160 metros quadrados pintado por Carlos Bastos, que decora o plenário da Assembléia Legislativa.Ela era tão cinematográfica que até inspirou um personagem do cineasta Glauber Rocha no filme O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969). A moça de manta roxa do filme era baseada na lenda viva da Rua Chile. Ela também inspirou o documentário A Mulher de Roxo, produzido pelo Pólo de Teledramaturgia da Bahia. O vídeo de 12 minutos, dirigido por Fernando Guerreiro e José Américo Moreira da Silva, mistura documentário e ficção. Haydil Linhares é uma das atrizes que vive Florinda Santos, a Mulher de Roxo.A personagem lendária da Rua Chile hoje é só lembrança. Se em vida foi famosa ou anônima, rainha ou plebéia, foi uma lenda urbana de Salvador. Enclausurada em si mesma, ninguém conheceu sua verdadeira história, de riqueza ou pobreza, de princesa abandonada no altar ou professora. Talvez ela fosse tudo que sempre queria – uma personagem lendária que sobrevive no imaginário popular. Longa vida para essa dama/santa com sua aura de mistério. (Gutemberg Cruz)



4 comentários:

Henry Dee disse...

Tânia,
A ciência ainda não descobriu a máquina do tempo, porém existem fatos e acontecimentos que nos remetem anos e anos atrás em nossas vidas. O texto de Gutemberg Cruz é um desses acontecimentos. Após lê-lo lembrei-me de alguns personagens que marcaram minha infância. Eram pessoas eufemisticamente estranhas. O povo dizia que eram loucos. Um em especial, vivia em uma realidade paralela. Hoje eu compreendo aquilo que ia pela alma dessa personagem.
Em sua dissociação da realidade, vivia em um universo onírico. Era louco, segundo as normas sociais. Porém em sua loucura tinha a inocência de um anjo, amava indistintamente, homens e mulheres, sem nenhuma conotação sensual. Sim, era o louco do bairro, mas hoje fazendo um balanço de todos os moradores do bairro, ele, o louco, foi o unico que viveu e morreu feliz. Nós todos, os equilibrados tivemos e temos nossas neuroses, psicoses, e outras oses mais. Ele nunca sofreu; pudera eu ter sido o louco do bairro, e como ele ter virado uma estrela que acendeu-se no céu, quando sua vida terminou na terra.
Decidi que então passarei a ser louco tembém. Sou louco mas sou feliz, mais louco é quem me diz!

Beijos

Henrique

Tânia regina Contreiras disse...

Henrique, tenho uma coleção de histórias sobre os "loucos" da minha infância. Eram figuras folclóricas quase, maravilhosos. Gosto do tema "loucura", em breve estarei falando sobre ele aqui no blog. Grata pela visita, espero que tenha gostado do meu novo vestido roxo-violeta :-)
Beijo,
Tânia

Luciana disse...

amei o blog, a escolha do nome, tudo...
oabraços grandes,
luciana

Tânia regina Contreiras disse...

Que bom que veio! Pois então, abraço grande pra você também!
Tânia