30 de setembro de 2017

Dos inesperados amanheceres




benoit courti photography


Jogo sementes
na terra dura
e choro exausta.
Ninguém nunca me
disse que lágrimas
irrigavam chão seco
E ainda tenho o rosto
entre as mãos trêmulas
quando a flor, a branca
flor irrompe da rachadura
- nada é em vão, no vão
um sonho nem sonhado
abre-se em pétalas.

Entoando




Imagem: sarolta ban


Das vozes
íntimas
uma se cala
muito cedo
e espera.
Não se sabe
se sonho
a doce canção
da memória
e a promessa
de um dia
um dia, novamente
ainda que sem
registro na agenda.
Das vozes
antigas
uma se recolhe
muito cedo
e aguarda.
Bem quando
começamos
a falar ela se vai
para que o guia
seja descoberto
dentro, bem dentro
bem fundo, se
não temermos
o abismo e seus
olhos sedutores.
Um dia ela volta
e diz que já chega
de alaridos
de desencontros
de coral desafinado
: recobro os sentidos
múltiplos sentidos e
entoo a canção que
sempre foi minha, com
a voz que sempre foi
minha, do jeito que
sempre fui eu, e voo
embalada pelo meu
próprio canto.

Memórias







Na chamada
escolar
o medo de
dizer "presente"
o medo dessa
grande mentira
o medo de vir
de onde posso
existir sem existir.

Ressuscitar








Atenta
à fagulha
no olhar
quase opaco.
Ultimo ato é
coisa matemática.
Sou almática
e reinvento.
Até chego tarde
dois pés além
do precipício.
Mas no hospício
de onde eu fugi
tudo é possível.
Acabou de morrer?
Posso crer que foi
só uma síncope.
Acorda, umbora
começar novamente?
Eu trouxe a semente
que só dá em chão árido.
Sujemos as mãos de terra!