26 de agosto de 2014

Rebelião



Do 110º Desafio Poético com Imagens - Arte: Katharina Jung

Sem asas
brancas;

sem a paz forjada
anemicamente
por almas sequiosas;

sem os esplendores
de raios luminosos
e epifanias matinais.

São corvos as pombas
que anunciam novos tempos;

grasnidos ásperos a voz dos anjos
que escutam a minha prece.

Eu não sou mais: inexisto!

Negros fragmentos alados
anunciam a paz feita de guerras;

rebelião de pássaros negros
arrebentam a gaiola e esperam
as águas que lhes saciarão a sede;

porque não há outro caminho: a liberdade
é uma explosão que nos atira ao alto

16 de agosto de 2014

Iluminação

Do 109º Desafio Poético com a Imagem - Imagem: Sarolta Bán


À última pincelada
o artista mergulhou
na paisagem da tela 
e então foi ser Deus.

14 de agosto de 2014

Escuta-me pela tez



Do 108º Desafio Poético com Imagens - Arte: Giuseppe Mastromatteo


Escuta meu amor
pelo alarido ancestral
da escuridão da pele

É noite e tudo sussurra...

Àjòjì
olha o mundo
devastado 
nas águas
dos meus olhos.

Acabaram-se
os meus...

Sepultados
nas veias
artérias
correm
vermelhos
sístole- diástole.

Tum-tum-tum
: tambor, meu amor,
dispara o coração
quando tu chegas.

Danças comigo?

11 de agosto de 2014

Fragrância alada


Do 107º Desafio Poético com Imagens - Arte: M. Iordache



Exalo pássaros
quando me extingo.

Agonizantes não encontram leitos
nas alas dos que simulam  vida.

Agonizantes não encontram portas
entre as névoas que encobrem o Além.

São as fronteiras de pedras assimétricas
que acolhem os mortos-vivos
: seres que entremeiam o sono e a vigília.

Antes de ir é preciso libertar os pássaros.
Deitar sobre a pedra fria que se ergue no nada.
Esvaziar-se do espanto da vida e da morte.

Abrando-me.
Amorteço-me.
Cubro o sexo com
a sobra da cortina
do último ato.

Há uma fragrância alada
que me preserva da putrefação.
Ainda ruflam anseios e vertigens
em busca de poros dilatados.

Enquanto me extingo
 exalo pássaros.

Findar-se é
uma revoada
dissolvendo-se
sobre o azul da tela...