30 de julho de 2014

Pelas mãos de Tarcila, a parteira


Do 105º Desafio Poético com Imagens - Arte: Ronda Saunder

Quando nasci
eu era só olhos.
A parteira amparou
o par de assombro
nas mãos calejadas
e sem dizer nada
rogou aos céus que
eu não me perdesse
no mundo largo que
estava fadada a ver.
 – Fecha-se, bebê;
ainda é cedo pra saber
da vida inteira de uma só vez!

8 de julho de 2014

Incêndio



Do 103º Desafio Poético com Imagens /Imagem: Patty Maher

A ruína 
e o grito agudo
do Stradivarius

: o que restou
do incêndio 
é chispa aflita
e desmemoriada.

13 de junho de 2014

Anatomia da cegueira


Resposta ao 101º  Desafio Poético com Imagens - Imagem: Gottfried Helnwein




Córneas
íris 
pupilas
retinas


: a excêntrica
anatomia 
da cegueira
sustenta-se
de sentidos
recém-nascidos;

olhos cegos
usurpam amanheceres
sob pálpebras tenras
na ânsia de forjar 
novas direções.

Nem o brilho Inocente 
dos pirilampos está a salvo
das órbitas esbugalhadas
daqueles que não enxergam.


10 de junho de 2014

Onde antes era pele




Imagem: web


Saudade das borboletas
– diurnos insetos lepidópteros 
do passado.

Saudade era lembrança
nostálgica de coisas ou
pessoas distantes ou extintas.

Pessoas eram seres humanos
considerados na sua individualidade
física ou espiritual.

Individualidade era particularidade
que distinguia coisas e pessoas.

Humanos choravam quando
se encontravam com borboletas.

Choro eram lágrimas;
lágrimas, secreção aquosa
da glândula lacrimal;
glândulas segregavam ou
excretavam substâncias.

Saudade era coisa que
cintilava na escuridão.

Mas a saudade persiste
quando tudo acaba.

Essa vontade de voltar pra casa
é atavismo que irrompe dos
mecanismos automáticos que
somos nós, escorrendo como
fio d’água pela superfície do
que antes se chamava pele.

Saudades das borboletas...