14 de janeiro de 2014

langue verte





Foto: web


(Para os meus)


Os meus
Encontro
Pelo faro.

Farejo
Pássaros
Amaldiçoados
Arapucas de veias
Voos frustrados.

São eles, eu sei:

A exaustão do corpo
Reduziu as asas
A delírios e lágrimas;
Hálitos embriagados
Pelo vinho da ausência.

Com os meus
Eu converso
Em langue verte.

Huginn e Muninn
Gorjeiam sobre
O mundo lá fora
Enquanto dói--nos
O membro amputado.

Os meus
Sofrem de
Dores fantasmas.

As asas suprimidas
São feridas invisíveis
Que jamais serão curadas.

Eu os encontro
Também pelo olhar:

Asas ruflantes
Em ânsia do voo.

12 de janeiro de 2014

Dá-me o Imprevisto





Imagem:  Susy Dienstbach


o Acaso
não é deus
de barganhas.

Nada prometa
e nada espere
enquanto o rosário
sangra seus dedos.

À noite,
a chama da vela
tremulará indiferente
à súplica ardente da alma.
E no quarto bafejado
por tantas ave-marias
a escuridão apagará os
sinais de bem-aventurança.

Não fale ao
Deus Acaso
sobre seus
sonhos de
felicidade.

Do contrário,
despertará sua ira
e atrairá a lógica
dos deuses que
apenas escutam,
sem adivinhar os mais
íntimos anseios da alma.

O deus desconexo
escarnece da prece
– flecha envenenada
através da qual o homem
assina sua própria sentença;

mas, se, ainda assim,
alguém quer a ele rezar,
eis então a oração:

Senhor Deus do Acaso, atende-me
 no  que não preciso;
Dá-me o imprevisto em
cada curva do caminho;
Desnorteia-me com a
falta de sentido  e me
 faz compreender
que não é preciso pedir:

magia é a resposta para
a pergunta que eu nem
sei  formular. Amém!


















11 de janeiro de 2014

Delírio dos deuses




Foto:web



Os homens
São delírios
Dos deuses.

O panteão
Alucina corpos
Angustiados
À procura de
Sua origem.

Saber-se é
Desvanecer-se:
Fantasma dissipado
Pela sobriedade divina

Eu não existo
Tu não existes
Ele não existe.

Quando os deuses
Recobram a razão
Caixotes de madeira
Recolhem o que restou
Do cristalizado  delírio. .

E enquanto um homem chora
A morte de outro homem
Os deuses, perplexos,
Desconhecem seus
Próprios fantasmas.




Lendas aladas V




Arte: Gisele Ferreira



Conta-se
De um tempo
Onde as palavras
Eram águas:

Os poetas
Afogavam-se
de amor;

Enquanto
As musas
Caminhavam
Incólumes
Sobre a pele
líquida do mar.