30 de outubro de 2013

Onomatopeias do adeus







Imagem da web      

A Morte tem muitas vozes




Tintim!

Sorvemos das taças
o último gole
alucinando eternidades.

Crack! prac! prec!

Agora explodem cristais
sob a onomatopeica
canção do adeus.



Baroom! Baruuum!

Os céus iluminam-se
ao clarão dos trovões
de um juízo final
que incinera sonhos.


Blém! Blém!

Da matriz da praça
o sino devassa a
íntima celebração da morte.

Crash!, Praaa!

Em letras de nuvens carmins
a gazeta diária da aurora
anuncia: dois astros chocaram-se
antes do amanhecer; da colisão
nasceram melancólicas estrelas.

29 de outubro de 2013

Agora é ontem






 Desafio Poético com Imagens - Imagem: E. Zola


Ainda é ontem.

Disseram-lhe
para não voltar.

Falaram-lhe que
o tempo passa.

Que a tempestade
prometida desabou sem
deixar sobreviventes.

E ainda é ontem, contudo.

O tempo parou na
hora em que ele
jogou a lingerie
aos pés da cama
[“Diz que me ama, diz!"]

Antes que as águas
inundassem o mundo.

Antes que o rio fizesse
flutuar a roupa íntima
botas, brincos e anéis...

Era preciso urgência
nas carícias e no gozo.

A tempestade prometida
desabaria a qualquer minuto.

Ela chegou com medo
de que o passado pudesse
pôr fim aos sonhos que
ainda persistiam agora.

Mas ainda é ontem.
O fim está, eternamente,
prestes a acontecer

Ela não sabe.
Receia o que
aconteceu há anos.

Não vê que o sol brilha
e que a relva verde mistura-se
agora a pedaços de concreto
da casa, da vida que já não há...

No seu sonho
ainda há tempo de viver
desesperadamente.

19 de outubro de 2013

Presente de Bruxo






Presente de Bruxo é precioso: obrigada, poeta!


índia

  (Para Tânia Contreiras)
 
 Domingos Barroso


Olha, apaguei a luz do quarto
para te escrever este poema
pois do escuro gostamos
e não temos medo -

na cabana,
águas em volta,
entidades felizes.

O que tu puseste
em meu cálice,
senhorita?

Como se agora
eu ouvisse teu coração
a festejar o dia de amanhã.

Não sei o que tu misturaste
ao meu vinho - ácido
ou lírios?

Sei que a luz do quarto apagada
mais lúcido e doce vejo em volta
os meus objetos dormindo felizes.

São todos loucos
de almas curiosas.

14 de outubro de 2013

Desvio






Do Desafio Poético com Imagens - Imagem: Brooke Shaden


Última imagem do Desafio Poético comentada, ontem, pelo poeta Wilson Caritta, que faleceu hoje. "Tania, querida, melhorando tentarei o poema com o maior prazer,a imagem é linda! Bjos”, deixou ele ontem registrado.
“...virei testemunha do descaso da saúde pública deste país, (é geral), e falo do estado mais rico da federação...." -  escreveu ontem no post do Desafio Poético, no Facebook. Mas o poeta não teve tempo para tentar. Escreveu o poema caminhando para fora desta vida.  Dedico o poema a Wilson. Poeta caminha com sua luz própria. E assim está ele caminhando.





Atenta
Para os pés
Suspensos:

Não há cadência
Nesta dança.

A morte é um desvio
Que liberta os passos
Da exatidão.

Olha-me
Na ausência
Dos olhos
E livra-te
Dos reinos
Prometidos.

Há um poema
Sem métrica
No fundo do abismo.