29 de setembro de 2013

Porque amar faz jardins





Desafio Poético com Imagens - Foto: Duane Michals





No sono vazio
Feito de anseio
Duplicata a vencer
Pernas bem torneadas
Mulheres sem rosto
O amassado do carro
A pelada na areia:

Uma cabeça pesa
Sobre a mesa da sala
E é só, mais nada!

Quando ela chega
Ao coração cerebral
E faz tremores nos olhos
E altera o ritmo da respiração
As flores da primavera abundam
Qualquer um pode ver e sentir
Que um amor lançou brotos
E um jardim se agiganta
Sobre o sono corrompido
E o amor expulsou o ordinário
Dos sonhos rasos que ele tinha
Fez jardins na aridez dos sonhos
Que só duplicam a vida desperta..

24 de setembro de 2013

Metamorfose



Desafio Poético com Imagem - Arte: By Ahermin


À Grande Asa Invisível
clamamos ser gente
por breves instantes.

Amor de membro e vulva
gorjeios articulados
asas de carpo
metacarpo e falange.

Os bicos desabrocharam
em carne vermelha e macia
num encontro de línguas
e o ruflar do sangue no coração.

À Grande Asa Invisível
prometemos voltar antes
que o sol derretesse a pele
e as carcaças revelassem
o segredo sobre a areia.

Contudo é tarde:

condenamo-nos
ao fugaz voo humano
no clímax do prazer.

Essas asas invisíveis
que nos erguem do
chão por ínfimos segundos
nos levam a crer, porém, que
um dia fomos pássaros...

13 de setembro de 2013

Moldura e cárcere







Desafio Poético com Imagem. Arte: sem referência de autor




Seriam tuas
as flores,
mulher nua
com rabo de peixe.

À porta de
tua morada
curei do vício
das lendas.

Não existias.
Não sofrias no
fundo das águas
com saudades minhas.

Não eras rainha aquática,
e o canto fascinante
no qual me envolveste
era tão-somente o silêncio.

Arribaram-se as
sacerdotisas aquáticas.

Sedutoras sacerdotisas aquáticas.

No infinito das águas eu miro a ilusão.
Não houve moça das águas senão
nos intermináveis devaneios meus.

No infinito das águas eu vejo reflexos.

Nenhuma das ilusões que tive
vieram de longe, de fora:

minhas miragens
sou eu distorcido
no devaneio das águas.

No fundo de mim
mora uma sereia
a quem preciso amar.

No fundo de mim
mora uma mulher
que não sabe caminhar
sobre a terra.

Que mergulha
seu ventre na frieza das águas
e que faz amor diferente.

Mas a ilusão é pano
caindo no último ato
da peça que a gente assistiu.

Eu acordei de um longo sono
e descobri que não há ninguém
por detrás da porta por onde olho.

Curei-me da ilusão de
desejar uma mulher aquática.

Mas não consigo entender
por que os homens não
chegam até a porta
para olhar o mar.

Sinto-me feliz
por ter uma porta
por onde olhar o mar.

Agradeço
por se encontrar aberta
alguma porta.

Adeus, sereia.
Agora tenho porta
aberta para o mar e olho
as ondas quebrarem
sua fúria nas pedras.


8 de setembro de 2013

Iniciação



Desafio Poético com Imagens - Arte:Jacob Christian Poen de Wijs





Na iniciação
as mãos levitam
copiando asas
e a mãe silencia a maldição
de lançar seu pássaro
ao primeiro abismo.