24 de setembro de 2013

Metamorfose



Desafio Poético com Imagem - Arte: By Ahermin


À Grande Asa Invisível
clamamos ser gente
por breves instantes.

Amor de membro e vulva
gorjeios articulados
asas de carpo
metacarpo e falange.

Os bicos desabrocharam
em carne vermelha e macia
num encontro de línguas
e o ruflar do sangue no coração.

À Grande Asa Invisível
prometemos voltar antes
que o sol derretesse a pele
e as carcaças revelassem
o segredo sobre a areia.

Contudo é tarde:

condenamo-nos
ao fugaz voo humano
no clímax do prazer.

Essas asas invisíveis
que nos erguem do
chão por ínfimos segundos
nos levam a crer, porém, que
um dia fomos pássaros...

13 de setembro de 2013

Moldura e cárcere







Desafio Poético com Imagem. Arte: sem referência de autor




Seriam tuas
as flores,
mulher nua
com rabo de peixe.

À porta de
tua morada
curei do vício
das lendas.

Não existias.
Não sofrias no
fundo das águas
com saudades minhas.

Não eras rainha aquática,
e o canto fascinante
no qual me envolveste
era tão-somente o silêncio.

Arribaram-se as
sacerdotisas aquáticas.

Sedutoras sacerdotisas aquáticas.

No infinito das águas eu miro a ilusão.
Não houve moça das águas senão
nos intermináveis devaneios meus.

No infinito das águas eu vejo reflexos.

Nenhuma das ilusões que tive
vieram de longe, de fora:

minhas miragens
sou eu distorcido
no devaneio das águas.

No fundo de mim
mora uma sereia
a quem preciso amar.

No fundo de mim
mora uma mulher
que não sabe caminhar
sobre a terra.

Que mergulha
seu ventre na frieza das águas
e que faz amor diferente.

Mas a ilusão é pano
caindo no último ato
da peça que a gente assistiu.

Eu acordei de um longo sono
e descobri que não há ninguém
por detrás da porta por onde olho.

Curei-me da ilusão de
desejar uma mulher aquática.

Mas não consigo entender
por que os homens não
chegam até a porta
para olhar o mar.

Sinto-me feliz
por ter uma porta
por onde olhar o mar.

Agradeço
por se encontrar aberta
alguma porta.

Adeus, sereia.
Agora tenho porta
aberta para o mar e olho
as ondas quebrarem
sua fúria nas pedras.


8 de setembro de 2013

Iniciação



Desafio Poético com Imagens - Arte:Jacob Christian Poen de Wijs





Na iniciação
as mãos levitam
copiando asas
e a mãe silencia a maldição
de lançar seu pássaro
ao primeiro abismo.

Delírio verde



Desafio Poético com Imagens - Arte: Michael Bilotta






sou ser aeróbico:

sudação e gutação
nesse ínfimo pranto
que na noite reluz
feito estrela na pele.

preciso contar
meu segredo de
folha invaginante.

falta-me o pecíolo
e qualquer coisa mais
que não consigo falar.

eu bem tentei te contar
eu bem tentei inventar
eu bem tentei descrever

mas não pude
– eu não soube.


preciso ser gavinha
me enroscar nas
hastes frágeis das palavras
humana arte que estranho aprender.

eu queria que soubesses
eu queria que viesses
em minha direção com
um regador verde-limão
eu queria tanto as tuas mãos
sobre essa pele que germina orvalhos.

agora é tarde
já me tomas
como gente
sem decifrar
o abismo entre
nossos reinos.

sou fotossíntese
e respiração.

essa paixão é delírio.