Amigo querido:
De cara, lembro das inúmeras cartas que já te mandei que tinham por introdução, invariavelmente, “...é domingo e chove...” Na nossa linguagem secreta, decifravas, então, de longe, o meu olhar oblíquo, a minha mudez, os meus seios pontiagudos quase perfurando a camiseta velha de malha, e eu envolta em névoa de tristeza que nenhum vento sopraria pra longe.
Hoje não, meu amigo...Hoje mudaria a estação, o dia seria um desses quaisquer, quem sabe a sexta-feira de Vênus, abençoada pela Deusa da Beleza. E não há chuva que caia agora, meu amigo, porque a aridez tomou conta de tudo – é para terras secas que os pássaros têm levado minhas sementes.
Beoh, o mundo está sofrendo mesmo, demasiadamente, ou estamos nós tão sensíveis, querido, e não suportamos mais a dor, os gritos agonizantes e silenciosos que lemos em tantos semblantes? Amigo, tenho visto tanta gente sofrer, tanta gente perdida em retorcidas ondas de dor, e fico sem saber como fazer para ajudar. Outro dia foi assim. Pensei em sugerir psicoterapia à pessoa, mas ela alegaria que não tinha dinheiro pra pagar, e há um preço, amigo, para a extirpação de cada dor, é neste mundo que vivemos, meu queido. Uma sessão psicoterapêutica custa caro. É aí que entram as religiões oferecendo consolos, milagres e reinos-dos-céus, e eles vão, porque sofrem.
Sabe menino, eu acredito que se houvesse mais amor, mais solidariedade entre os homens, não seriam necessárias tantas igrejas, tantas religiões. São esses os únicos lugares que os acolhem, Beoh. Engana-os, ludibriam, muitas vezes, mas é a única coisa de que dispõem. Mas acredito, Beoh, que a única saída para tanta dor é a espirituação. E quando normalmente falamos em espiritualidade, algumas pessoas acreditam que estamos pedindo alienação, sugerindo indiferença total às coisas do mundo, não é isso. A espiritualidade de que falo é aquela que nos diz de nossa ignorância como origem da dor. Só podemos amenizar nossas dores profundas quando tomamos consciência de que tosas elas são causadas pela nossa ignorância, as nossas ilusões, nosso medo de crescer.
Olha, querido, há uma beleza tão grande na dor pungente e profunda. É como a dor de um parto... Quando sofremos, estamos sendo convidados a enxergar o mundo com outros olhos... Estamos aprendendo a ver as coisas tais como são...estamos descobrindo erros e nos descobrindo outros – um passo adiante a caminho da sabedoria. A dor vem quebrando padrões e couraças...a dor vem nos mostrando a nós mesmos tais como somos, sempre fomos, mas temíamos ser. Sofrer não é tão mau assim Beoh, quando aproveitamos cada ensinamento, quando nossas percepções estão apuradas. Quando sabemos que seremos outro depois da dor, e seremos bem melhores do que somos.
Já estou te vendo falando que esqueço dos famintos, dessas dores mais concretas, que não podem ser lidas da mesma forma - eu sei, eu sei...
Falo da dor da alma, Beoh... falo da dor da alma...
Mas continuo amanhã, que tanto tenho pra te falar... que tanto tenho a perguntar sobre essa vida e o tempo que nos colocou geograficamente distantes...
Mas deixo pra amanhã, que é noite e logo amanhece...