29 de junho de 2010

Gisela Rosa e a canção lilás


Excelente a entrevista do Marcelo Novaes, no blogue Bloco de Notas (http://notaderodape-marcelo-novaes.blogspot.com), com a nossa sensível poeta Gisela Rosa, que muitos conhecemos através do blogues A linguagem dos rostos (http://alinguagemdosrostos.blogspot.com) e A Matriz dos Sonhos (http://amatrizdossonhos.blogspot.com). Quem quiser conferir, está no http://notaderodape-marcelo-novaes.blogspot.com/2010/06/marcelo-conversa-com-gisela-ramos-rosa.html.


Abaixo, um trecho da entrevista de Gisela e um poema do Marcelo Novaes, que combina bem com os tons do Roxo-violeta.



"...sou o resultado do tudo por que passei, de tudo o que vi até hoje....e que é na consciência do incompleto que é possível encontrar o reflexo do Outro....um reflexo de Nós ...e sempre a possibilidade de nos completarmos nos outros..."


(Gisela Rosa)
*


Mais lilás


Há uma canção lilás

que sopra os lustres

e não deslustra as

sombras que

pairam sobre

nós.

E é uma canção que

sonha azuis quando

sobram vermelhos,

porque faz questão

de se reconhecer

sempre a mesma

no espelho,

e da mesma cor,

desde quando surgiu

refratada em camadas

de gelo, alguns milhões

de milhas da órbita do

sol.

Há uma canção que

sopra tal, que nos

amolda à sua feição,

como se fôssemos

aros arcos dobras

molas na sua mão.

E é uma canção que

também nos solta,

por entre os vãos
dos dedos, para

que sejamos nós

mesmos.

Apesar de nossa

Escuridão.

21 de junho de 2010

Vamos para os campos, buscar o inesperado

Ele existia – isso já dava a ela o sentido da vida. Não que o visse, que soubesse de uma eventual alegria ou qualquer tristeza que lhe tivesse chegado à alma inesperadamente – não, não sabia! Mas a ela bastava imaginar que, numa rua de calçamento irregular, com um único Ipê roxo que talvez tenha permanecido de pé, ele caminhava, enigmático, em sua direção. As gastas botinas pretas certamente ainda arranhavam o chão, desafinadas.

Um dia pensou em mandar-lhe uma carta, das tantas que escreveu madrugada adentro, mas desistiu para não parecer antiga. Desistiu por temer também que as palavras envelhecessem durante o percurso e chegassem sem a força daquele amor renovado a cada dia, mesmo a distância.

Nos raros momentos em que a alegria lhe visitava, gostava de dizer que sim, tinha um amor que morava do outro lado do oceano e que sofria secretamente pela vasta extensão de águas que os separava. Logo em seguida, ficava triste por lembrar que a vasta extensão de águas que se interpunha entre os dois não passava de uma fantasia e que talvez fosse uma estrada apenas o caminho a vencer para que enfim estivessem juntos novamente.

Muitos anos antes de conhecê-lo, pressentia que ele viria do mar. Como não havia, então, nenhuma espécie de água na sua cidade feita de pedras, sonhava em ganhar o mundo, fazer morada numa cidade grande, cercada de água por todos os lados. Quando comentou isso com Ernesto, o único vivente capaz de entender seus anseios naquele fim de mundo, ele explicou que seu mar era apenas uma metáfora – e lá se foi ele ensinar que metáfora era qualquer coisa como uma semelhança indireta, um sentido figurado, e ela pouco pôde entender, então, da explicação.

Fosse como fosse, Ernesto era a única pessoa que podia compreender os sentimentos estranhos que lhe acorriam à alma. Foi a ele que contou, um dia, na véspera da Festa da Primavera, que se sentia duas pessoas: uma que estava presa ao corpo e ao pouco espaço que a cidade de pedra oferecia, outra que já ostentava as primeiras rugas e jazia cansada de vagar pelas estradas desertas de uma vida que de fato nem vivera. Também foi a Ernesto que mostrou o seu primeiro escrito, inspirado em uma foto antiga apanhada no baú de sua tia. Uma carta de amor! – dissera-lhe ele em júbilo!

Passaram-se anos e muitas cartas de amor foram escritas a um remetente imaginário. Dia após dia o montinho de missivas crescia, sem que houvesse um endereço real para onde pudesse enviá-las. Ainda assim, o coração batia acelerado a cada vez que o homem dos correios tocava a campainha de sua casa, como se viesse trazer-lhe as respostas para as cartas que nunca saíram da gaveta da velha escrivaninha sanfonada.

Foi num sábado de outono que viu pela primeira vez o homem de botinas pretas. Pela fresta da janela do quarto, percebeu que ele procurava conferir o número desenhado em giz na parede externa da casa. Tinha olhos tristes e apertados aquele homem cuja fisionomia parecia-lhe familiar. Num ímpeto que nunca soube explicar, deu a volta pelo corredor externo que dava acesso ao jardim, e num minuto estava prostrada à frente do desconhecido.

O que conversaram por mais de meia hora, nunca contou a ninguém. Também não falou a Ernesto de que forma puderam ver-se – ela e o forasteiro – por mais alguns meses, enquanto ele resolvia o que viera fazer naquela cidade de pedras. E da mesma forma que chegou, o homem se foi um dia. Tanto tempo se passou depois disso. Tantas histórias viveu nos anos que se sucederam ao primeiro encontro. Algumas rugas e um cansaço precoce também chegaram à sua vida. Outros homens conhecera, de poucos amores sofrera, mas nenhuma carta foi escrita a outra pessoa que não ele.

Por muito tempo ainda escreveu cartas. Junto a algumas, colocava flores secas do ipê roxo. Com o passar dos dias, as cartas foram rareando, porque a época era outra, porque já havia aprendido que cartas de amor são ridículas, porque o endereço que o homem lhe deixara perdeu-se no emaranhado de papéis que aprendeu a acumular.

Às vezes ainda ficava alegre e imaginava-se vencendo um mar agora mais extenso. Sim, ele existia – e isso já dava a ela o sentido da vida. Um dia ensaiou escrever-lhe algo que nunca lhe tinha dito ao longo da vida, mas não encontrava nada com viço. Foi quando leu nas cartas de amor de Gibran – um dos autores que lhe foram apresentados por Ernesto há tanto tempo – uma frase que copiou e com a qual iniciaria, então, a sua última carta:

Existe emoção maior do que ver os elementos produzindo força e energia selvagem? Vamos para os campos, buscar o inesperado”...

E morreu antes que pudesse juntar à carta a flor roxa e seca do último ipê que permaneceu de pé.

18 de junho de 2010

Brincar de ver



Ganhei de presente do Jaime, há muitos anos, um exemplar da HQ Os Olhos do Gato, de Moebius e Jodorowsky. Mesmo não familiarizada com esse universo, fiquei fascinada pelo presente, e só soube muito tempo depois que Moebius fora reconhecido como um dos melhores artistas de histórias em quadrinhos na Europa e no mundo, tendo recebido inúmeros prêmios durante sua carreira. E Os Olhos do Gato está entre as obras-primas dos quadrinhos – surpreendi-me ao saber, leiga que sou no assunto.

Mesmo considerada uma história de horror – e não gosto de histórias de horror –, o texto é de uma beleza arrebatadora, em minha opinião. Um cego que pede para que uma ave roube os olhos de um gato para que ele possa enxergar através da visão do animal. Insatisfeito com a experiência, solicita, então, que, da próxima vez, lhe sejam trazidos os olhos de uma criança.

Lembrando da história de Moebius, veio-me também a memória uma conversa antiga, com Roberto Damasceno, quando brincávamos com a possibilidade de “trocar de cabeça”, se isso fosse possível. Eu e ele disputávamos qual de nós tinha a cabeça mais complexa e, a certa altura, ele sugeriu, matreiro: “Quer trocar?”. Sorri e respondi que, caso efetuássemos a troca, no dia seguinte, se muito, ele me procuraria para fazer a devolução.

Verdade é que seria mesmo interessante se pudéssemos trocar de lugar com outras pessoas, eventualmente. Pensar como elas pensam, olhar o mundo com outros olhos. Mas, por mais que tentemos, jamais chegaremos tão perto de alguém a ponto de entender o emaranhado de seu universo, a singularidade da sua alma, o inusitado de suas percepções.

Ainda há poucos dias, lendo Gisela, no blog A Matriz dos Sonhos, agradeci à nossa sensível poeta a possibilidade de olhar através dos seus olhos. “Grata por emprestares teus olhos para que eu pudesse ver mais!” – escrevi lá. E é assim mesmo que acontece a cada vez que leio um poema, uma crônica, que vejo uma obra de arte – é como se eu tivesse tomado por empréstimo o olhar do poeta, do artista, e por um momento enxergasse o mundo de um ponto de vista inteiramente novo, com olhar de estreante – uma sensação maravilhosa!

Tenho cá a impressão de que algumas pessoas são mais propensas a “assumir” a posição do outro, a colocar-se emocionalmente no seu lugar, a querer não apenas “entender” o que alguém diz, mas a sentir exatamente como o outro sente. Astrologicamente falando, as pessoas cujo elemento é a água (cancerianos, escorpianos e piscianos) inclinam-se mais a ocupar o lugar do objeto contemplado, ou, melhor dizendo, fundem-se com a imagem que olham, tomam por um segundo, pelo menos, o olhar emprestado e descobrem com uma certa precisão “o que é ser o outro”.

Algumas vezes sinto um cansaço de olhar o mundo apenas através dos meus olhos. Como, evidentemente, não agiria como o personagem de Moebius, não sairia arrancando os olhos de ninguém para encaixá-los na minha cavidade orbitária, dou-me a chance de pedir emprestado os olhos daqueles que veem o mundo com a singularidade de sua percepção; olho através do olhar dos poetas; fascino-me com a possibilidade de ver coisas que ainda não pude ver e sentir da forma que ainda não me foi possível.

Assim, com essas palavras, agradeço aos amigos que por aqui vão me emprestando seus olhos e ensinando-me a ver um pouco mais além: Pablo, Roberto, Bípede, Marcantonio, Gerana, Walkiria, Assis, Lu, Cristiano, Claudinha, Juan, Rita, Ediney, Machado, Irene, Renata, Mila, Andrea, Brown ... enfim, são muitos os olhos através dos quais eu posso ver.

Hoje partiu o Saramago... Mas, que bom, continuaremos a ver através de seus olhos...



9 de junho de 2010

Até a volta!


Caros blogueiros e amigos, o Roxo-Violeta volta a falar em breve. Abraços e até a volta!