Ganhei de presente do Jaime, há muitos anos, um exemplar da HQ Os Olhos do Gato, de Moebius e Jodorowsky. Mesmo não familiarizada com esse universo, fiquei fascinada pelo presente, e só soube muito tempo depois que Moebius fora reconhecido como um dos melhores artistas de histórias em quadrinhos na Europa e no mundo, tendo recebido inúmeros prêmios durante sua carreira. E Os Olhos do Gato está entre as obras-primas dos quadrinhos – surpreendi-me ao saber, leiga que sou no assunto.
Mesmo considerada uma história de horror – e não gosto de histórias de horror –, o texto é de uma beleza arrebatadora, em minha opinião. Um cego que pede para que uma ave roube os olhos de um gato para que ele possa enxergar através da visão do animal. Insatisfeito com a experiência, solicita, então, que, da próxima vez, lhe sejam trazidos os olhos de uma criança.
Lembrando da história de Moebius, veio-me também a memória uma conversa antiga, com Roberto Damasceno, quando brincávamos com a possibilidade de “trocar de cabeça”, se isso fosse possível. Eu e ele disputávamos qual de nós tinha a cabeça mais complexa e, a certa altura, ele sugeriu, matreiro: “Quer trocar?”. Sorri e respondi que, caso efetuássemos a troca, no dia seguinte, se muito, ele me procuraria para fazer a devolução.
Verdade é que seria mesmo interessante se pudéssemos trocar de lugar com outras pessoas, eventualmente. Pensar como elas pensam, olhar o mundo com outros olhos. Mas, por mais que tentemos, jamais chegaremos tão perto de alguém a ponto de entender o emaranhado de seu universo, a singularidade da sua alma, o inusitado de suas percepções.
Ainda há poucos dias, lendo Gisela, no blog A Matriz dos Sonhos, agradeci à nossa sensível poeta a possibilidade de olhar através dos seus olhos. “Grata por emprestares teus olhos para que eu pudesse ver mais!” – escrevi lá. E é assim mesmo que acontece a cada vez que leio um poema, uma crônica, que vejo uma obra de arte – é como se eu tivesse tomado por empréstimo o olhar do poeta, do artista, e por um momento enxergasse o mundo de um ponto de vista inteiramente novo, com olhar de estreante – uma sensação maravilhosa!
Tenho cá a impressão de que algumas pessoas são mais propensas a “assumir” a posição do outro, a colocar-se emocionalmente no seu lugar, a querer não apenas “entender” o que alguém diz, mas a sentir exatamente como o outro sente. Astrologicamente falando, as pessoas cujo elemento é a água (cancerianos, escorpianos e piscianos) inclinam-se mais a ocupar o lugar do objeto contemplado, ou, melhor dizendo, fundem-se com a imagem que olham, tomam por um segundo, pelo menos, o olhar emprestado e descobrem com uma certa precisão “o que é ser o outro”.
Algumas vezes sinto um cansaço de olhar o mundo apenas através dos meus olhos. Como, evidentemente, não agiria como o personagem de Moebius, não sairia arrancando os olhos de ninguém para encaixá-los na minha cavidade orbitária, dou-me a chance de pedir emprestado os olhos daqueles que veem o mundo com a singularidade de sua percepção; olho através do olhar dos poetas; fascino-me com a possibilidade de ver coisas que ainda não pude ver e sentir da forma que ainda não me foi possível.
Assim, com essas palavras, agradeço aos amigos que por aqui vão me emprestando seus olhos e ensinando-me a ver um pouco mais além: Pablo, Roberto, Bípede, Marcantonio, Gerana, Walkiria, Assis, Lu, Cristiano, Claudinha, Juan, Rita, Ediney, Machado, Irene, Renata, Mila, Andrea, Brown ... enfim, são muitos os olhos através dos quais eu posso ver.
Hoje partiu o Saramago... Mas, que bom, continuaremos a ver através de seus olhos...