17 de maio de 2010

Pássaro antigo sangrando à beira do abismo

Há pouco descobri o que fazer da minha ignorância: caminhos inusitados! Ontem ouvi um ator verbalizar que não entende como conseguiu passar 78 anos de sua vida sem saber dançar. Não era tarde – nunca o é – e começou, enfim, a ensaiar os seus primeiros passos. Lembrei-me de mim, nesta quase segunda metade da vida, resolvendo um conflito básico da minha existência: atirar-me no abismo e viver o desconhecido ou reincidir nos passos freados bruscamente à beira de cada precipício que me chama há séculos?

Dançar pode dar certo, mas não rodopiei ainda com o corpo. A experiência veio de outra instância – mas também artística, por assim dizer –, como um convite da alma às mãos, tendo o papel branco como abismo e uma caixa de tintas – muitas tintas – à minha disposição. Pintar – nunca o fiz! E lá estava eu intimada a deixar que qualquer coisa desconhecida se desprendesse da alma, escorresse pelos dedos e se tornasse algo no espaço vazio à minha frente.

Viciada, procurei as cores habituais da minha loucura mansa – não as encontrei. Uma lambuzeira púrpura ensaiou-se no centro do papel, desconhecendo totalmente o seu destino último. “É assim que um filhote de pássaro aprende a voar”, pensei, com pincel empunhado e olhar trêmulo.

A alma sussurrou-me que me deixasse escolher pelas cores. Uma vertigem sangrou o infinito branco do papel posto à minha frente. Sobre o vermelho, um verde-musgo alvoroçou uma cauda espalhafatosa e brilhante, em movimentos que lembravam o abrir-e-fechar do rabo de uma ave. O que era aquilo, eu não sabia. Mas uma desordem buscava o seu sentido próprio, e a minha mão obedecia, ofegante, ao ritmo imprimido pelo bailado do tufo de fibras sobre o papel.

Em meio a um quase transe, uma voz instigava-me a transgredir as margens do papel, a espalhar o corpo recém-nascido para além dos limites estabelecidos pelo espaço, pelas regras que nos fazem estancar diante dos inúmeros abismos que nos convidam a viver.

Precavida, acudiu-me a providência de uma moldura qualquer, de uma cor qualquer, que me garantisse um retorno seguro ao mundo real, porque o tempo estava acabando e o delírio – embora vívido – não poderia prosseguir pelos caminhos de terra por onde os passos costumavam seguir.

Quem é você? – pus-me a pensar mirando a figura esquisita que nascera através de minhas mãos. De onde vem? – minha mente concreta ansiava por um nome, um lugar, uma explicação.

E uma voz primeva socorreu minha ânsia:

– Pássaro antigo sangrando à beira do abismo!


(T.C.)

13 de maio de 2010

De onde vêm as lágrimas?

... sei: você vai me dizer que comecei pelo meio, que eu tente organizar os pensamentos, e faça uma introdução sintética do assunto, que hierarquize as ideias, que esqueça a geleia e o pão enquanto falo... Enquanto isso, minha voz sussurrada aqui pergunta: de onde vêm as lágrimas? Como pode um mar introduzir-se por dois minúsculos orifícios e despejar-se tanto e todo... e se lhe parece tolo esse meu anseio, vá, abre algum livro de anatomia, fale do diâmetro, da luz invertida, dos impulsos nervosos e da imagem conduzida ao cérebro...Se lhe pareço tonta, fale do fluido aquoso salino, esqueça que já foi menino, academize os sentimentos, faça tese dos meus pensamentos, enquanto, atônita, eu me pergunto: de onde vêm as lágrimas?

É tarde, eu sei...e é preciso olhar o relógio, é imprescindível compreender que aprisionaram o tempo, que o amanhã é o ponto seguinte depois da meia-noite, e que essa chuva de açoite nada tem a ver com os sentimentos meus.

Vertem dos céus as águas que em mim estanco, dispenso o seu discurso franco, apresse o passo pra não perder o voo. Quem sabe conversamos na volta, e se não o levo até a porta é porque agora preciso compreender: de onde vêm as lágrimas?

(Tânia Contreiras)

12 de maio de 2010

O que o poema devora


Eu gosto tanto da escrita do Marquinho (Marcantônio, do blog Diário Extrovertido), que escolhi esse poema para um post aqui na Casa da Imaginação. Quem já conhece, pode reler. Quem não conhece o talento do Marcantônio pode conferir no seu blog, que não deixo de frequentar: http://diarioextrovertido.blogspot.com/


O FUNDO, A FACE


O que em mim


vai por dentro,


ocluso, oculto,


o poema devora.


O que em mim


é silêncio denso


no poema se arvora


em ramas sonoras.


O que em mim


é caixa interna,


canopo, relicário,


no poema é lápide,


epitáfio vário.


O que em mim


é amplo fosso,


no poema é face,


escorço.


O que retenho,


lenha,


o poema inflama


e resenha


em chamas.
(Marcantônio)